segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Potencial da RIO+20

Por Jean-Pierre Leroy

O Rio de Janeiro sediará em Junho de 2012 um evento que poderá simbolizar o encerramento de um ciclo e o início de outro. Por ocasião da RIO+20, espera-se que seja feito um balanço abrangente do ciclo de conferências das Nações Unidas dos anos 90, iniciado com a RIO-92 e que incluiu conferências sobre população, direitos humanos, mulheres, desenvolvimento social e a agenda urbana. Também em 2012, o Protocolo de Kyoto terá chegado ao seu limite de vigência.

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO+20) se propõe a debater três questões: avaliação do cumprimento dos compromissos acordados na RIO-92, economia verde e arquitetura institucional para o desenvolvimento sustentável. A RIO+20, portanto, tem o potencial de ser um momento ao mesmo tempo de balanço das conquistas e derrotas das últimas duas décadas e também de identificação de uma nova pauta de lutas à frente.

O Contexto da RIO+20: fragilidade do sistema da ONU num cenário de múltiplas crises

Os seres humanos e o Planeta estão vivenciando múltiplas crises que põem em questão o futuro da humanidade. Nem as Nações Unidas, nem os governos, aprisionados ao passado, estão agindo em consonância com a gravidade do processo de deterioração acelerada em curso. As organizações da sociedade civil global, que vêm se reunindo de forma autônoma em espaços como o Fórum Social Mundial e nos processos e lutas permanentes que ligam o local e o global, em eventos paralelos às conferências das Nações Unidas, às reuniões do G-20 e das instituições financeiras multilaterais, e que se reunirão no Rio de Janeiro durante a Conferência RIO+20, estão desafiadas a revigorar e a continuar a luta por outro mundo e pressionar os governos e as instituições do sistema internacional a atuarem de forma efetiva. A constituição desse movimento global se intensificou a partir do Fórum Global, em particular do Fórum Internacional das ONGs, realizado paralelamente à RIO-92, e, em 2012, a avaliação do estado das lutas e conquistas globais também estará em pauta. A Conferência realizada em Johanesburgo pelo aniversário de dez anos da RIO-92, as Conferências das Partes (COP), a insignificância do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), e a impotência da ONU em fazer face às catástrofes humanitárias mostram a incapacidade do atual sistema internacional para enfrentar os desafios que o futuro impõe e para fazer cumprir os acordos do ciclo de conferências desde a RIO-92.

As COP encarregadas de implementar as decisões das Convenções sobre Biodiversidade, sobre Desertificação e sobre Mudanças Climáticas demonstram essa afirmação. A biodiversidade é associada historicamente aos povos indígenas, às populações tradicionais e ao campesinato, mas apesar de um reconhecimento em tese do seu papel, eles estão sendo sistematicamente espoliados dos seus direitos, chegando mesmo a serem expulsos dos seus territórios. Cada vez mais, o enfrentamento da desertificação está aquém dos desafios que o tema apresenta, o mesmo ocorrendo em relação às migrações forçadas. E a crise climática, por sua vez, está sendo apropriada pelo mercado para gerar lucros. O balanço dos compromissos assumidos nas conferências de direitos humanos, mulheres, desenvolvimento social e hábitat também não deixam dúvidas sobre a distância entre declarações de compromissos e realidade.

Do desenvolvimento sustentável à economia verde: a reciclagem de um modelo insustentável


Numa contradição insanável, a Conferência RIO-92, ao mesmo tempo em que reconhecia a grave crise ambiental do Planeta – em particular no que diz respeito à biodiversidade e ao clima – e a responsabilidade dos países industrializados, afirmava a primazia da economia como motor do desenvolvimento, batizado então de “sustentável“. De maneira sob-reptícia, os governos presentes e a própria ONU reconheciam o poder da economia capitalista acima da política, ou melhor, como condutor da política. Consagraram o “desenvolvimento sustentável”, termo rapidamente apropriado pela economia dominante e assim esvaziado do seu potencial reformador.

Em substituição ao esvaziado termo desenvolvimento sustentável, a agenda da RIO+20 busca apresentar a “Economia Verde” como uma nova fase da economia capitalista. Através do mercado verde, um novo ambientalismo, fundado no “business verde”, propõe a associação entre novas tecnologias, soluções pelo mercado e apropriação privada do bem comum como solução para a crise planetária. Esta reciclagem das clássicas formas de funcionamento do capitalismo, de seus modos de acumulação e expropriação, constitui-se em um estelionato grave de conseqüências profundas. Dá um novo fôlego a um modelo inviável e oferece como utopia somente a tecnologia e a privatização. Impede tomar consciência da crise que enfrentamos e dos verdadeiros impasses que está vivendo a humanidade. Portanto, impede que novas utopias sejam formuladas e alternativas civilizacionais construídas.

Devemos questionar o que o desenvolvimento sustentável e a economia verde têm a contribuir para a proteção e a garantia dos direitos humanos. O mercado deixa a sua defesa aos governos e à ONU, que mantém a retórica dos direitos humanos, incluindo no seu campo o direito à água; mas, sem meios nem vontade política para implementá-los.

Voltam-se cada vez mais para intervenções humanitárias, que tendem a substituir a promoção dos direitos. Tendo poder apenas normativo, os compromissos acordados na esfera da ONU ficam soterrados pelo poder de sanção e retaliações de instituições como OMC, FMI e Banco Mundial. Diante da incapacidade da ONU, de um lado, e do poder das instituições multilaterais que servem aos interesses das corporações, do outro, o resultado é que governos e políticas públicas e democráticas perdem cada vez mais espaço para acordos e políticas que entregam nosso futuro à iniciativa privada e, na sua mais nova versão, à Economia Verde.

O mundo está subordinado à força hegemônica do capital. Este não tem outra visão de futuro do que a promessa de um desenvolvimento ilusório, porque predador do meio ambiente, violador dos direitos humanos e excludente de países e populações. A ideologia do desenvolvimento, entendido como crescimento econômico que alimenta a expansão de padrões insustentáveis de produção e consumo, penetrou profundamente no imaginário e na cultura de todas as classes sociais, no Norte e no Sul, orientando inclusive a ação de governos eleitos em países do Sul com o mandato de desencadearem transformações, mas que, no entanto, não conseguem construir uma nova correlação de forças capaz de alavancar mudanças e também não conseguem acumular reflexão e força política na direção de novos paradigmas.

Os Estados dominantes, ao longo de dois séculos, e com mais intensidade, nas últimas décadas, promoveram a globalização da economia. As guerras coloniais, a ocupação de territórios e a escravidão foram substituídas hoje por acordos bilaterais e instâncias multilaterais que cumprem o mesmo papel de submeter e subordinar os países do Sul ao seu poder. Assim, impuseram ao mundo um modelo, técnico e econômico, de produção e de consumo sustentado pela exploração do trabalho, a sobre-exploração dos recursos da natureza e a exploração de outros países.

Se a exploração humana e de países pode se perpetuar apesar dos gravíssimos conflitos resultando na exclusão, a exploração da natureza mostra seus limites e começa a afetar a reprodução do capital, direta e indiretamente, quando doenças, diminuição da qualidade de vida e catástrofes começam a levantar suspeitas e minar a base de sustentação do modelo.

A crise que emergiu em 2008, inicialmente no sistema financeiro, não deixa dúvidas quanto ao caráter profundo de suas raízes, que revela a quebra de legitimidade e de sustentação econômica, social, ambiental e política de reprodução do modelo vigente. A crise em curso deixa clara a perda de hegemonia do concerto do poder que se perpetua desde o fim da Segunda Guerra e das instituições internacionais que lhe dão sustentação econômica e política. A crise abre, portanto, brechas de disputa pela democratização do sistema internacional. As novas e instáveis coalizões entre países, não mais cristalizadas em divisões Norte-Sul, são sintomas de um cenário político global em movimento. A RIO+20 pode ser um importante momento de alavancagem de uma nova correlação de forças e de uma nova agenda global, oferecendo aos movimentos sociais, organizações populares, movimentos de povos tradicionais e originários, sindicatos, entidades da sociedade civil que refletem ou buscam expressar os anseios de amplos setores da população mundial, a oportunidade de renovar seu protesto e seu questionamento sobre aos rumos dados ao futuro do mundo pelas corporações, instituições e países dominantes, acompanhados pela grande maioria das elites políticas e econômicas, desenhar suas utopias e formular com maior consistência as alternativas que vislumbram.

A RIO+20 e a construção de alternativas

A RIO+20, como evento mundial, nos permite sair das nossas fronteiras; nos abrir à solidariedade universal, para além dos particularismos; buscar pontos comuns de observação, que nos desloquem e façam com que nos encontremos, de muitos lugares do mundo. Mas isso com a condição de que nossa referência esteja nos povos e populações marginalizados e excluídos, com as quais compartilhamos os anseios por uma sociedade cujo pilar de sustentação seja os direitos e a justiça social e ambiental.

Não temos todas as respostas, mas temos a responsabilidade de buscá-las, entre o desejável e o possível. Mas mesmo o possível não se realizará sem que seja portador de utopias que reatem os laços entre ser humano e natureza, no campo e na cidade. Ele exige, portanto, uma mudança completa dos paradigmas que definem a civilização ocidental. Querer outras formas de organização das sociedades do que os Estados-Nações, outras formas de democracia do que a democracia parlamentar, outras economias do que a economia capitalista, outra mundialização do que a do mercado, outras culturas do que a imposta pelos EUA. Escutá-los com atenção talvez nos ajude a encontrar os rumos do futuro e formular novas utopias que motivem a humanidade, em particular a juventude.

Desenvolvem-se através do Planeta centenas de milhares de alternativas que podem ser as sementes da construção de novas utopias:

- Milhões de camponeses, de sem-terra, de povos indígenas e outros grupos tradicionais resistem e lutam pela Reforma Agrária, pela agroecologia, pelo definitivo domínio de suas terras ancestrais. Apoiados por tecnologias apropriadas, eles podem garantir a soberania e segurança alimentar e nutricional do planeta e dar uma contribuição decisiva na manutenção da biodiversidade, das águas e na mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Eles apontam uma alternativa ao modelo de agricultura e pecuária dominante, que provoca a destruição dos ecossistemas e da biodiversidade, que contribuem fortemente para o Efeito Estufa e o envenenamento das águas, dos solos e das pessoas.

- Experiências de economia solidária e de fortalecimento de mercados locais contribuem para a redução do consumo de energia, encurtando os circuitos entre produção, distribuição e consumo, favorecendo as micro, pequenas e médias empresas, que fornecem empregos, em contraposição à circulação das mercadorias através do mundo e deslocalização permanente das empresas e avanços tecnológicos, que não reduzem o consumo de energia e de matérias primas e produzem desemprego.

- A lógica da economia não deve ser a do lucro, mas a de assegurar condições de vida digna para as populações. Fortalece-se uma economia solidária que combate a economia dominante excludente das pessoas. Nas cidades, nas roças e nas florestas do Sul do mundo, grande parte dos trabalhadores e das trabalhadoras se encontram na economia informal, esquecidos pela macroeconomia, e inventam uma microeconomia em parte sucedânea e concorrente da economia formal, em parte inovadora.

- Reconstituição de um tecido urbano descentralizado e interiorizado, novas políticas habitacionais e urbanísticas, de saneamento e de transporte coletivo. Estas propostas visam enfrentar o desequilíbrio dentro das cidades e metrópoles, que viraram plataformas de exportação cercadas por enormes aglomerações de pobreza e miséria, que somadas ao desequilíbrio na ocupação humana dos espaços nacionais e regionais, fazem dessas cidades, e dentro delas, das camadas populares, as primeiras vítimas das mudanças climáticas.

A construção de alternativas e a arquitetura institucional

A escala global dos poderes impede o avanço da emancipação humana nos termos da idealidade inscrita nos pactos e convenções internacionais. Portanto, avançar nessas alternativas e em outras supõe disputar e questionar os paradigmas das instituições e atores internacionais que dão suporte ao atual modelo. Isso não quer dizer que acreditamos numa mudança brusca e radical na economia mundial. Deve-se pensar necessariamente em convivência, em transição no médio e longo prazo. Essa transição se fará menos pela reforma interna das instâncias atuais de intervenção na economia, que pretenderia reorientar suas estratégias, seus métodos e suas prioridades, e mais pela construção de novos espaços, de instituições novas que não sejam viciadas pelo seu passado, mas abertas para uma nova correlação de forças e novas agendas. As instâncias atuais continuarão a ser questionadas a agir e até a se reformarem, mas há que se esperar que elas percam progressivamente a sua importância, quando e porque ao seu lado será criado algo radicalmente novo que crescerá econômica e politicamente como contrapeso.

Para que tal ocorra é preciso olharmos para o processo rumo à RIO+20 como uma oportunidade para investirmos no acúmulo de forças, na base da sociedade, que seja capaz de disputar uma nova hegemonia. Após o ciclo de ascensão dos movimentos contra-hegemônicos iniciado em Seattle e ampliado com o Fórum Social Mundial, e o relativo descenso que as mobilizações de massa experimentaram nos últimos anos, a RIO+20 se coloca como possibilidade de rearticulação e alavancagem de uma iniciativa política no plano global.

É esta visão que orienta e delimita nossa vontade de participação no processo que nos levará a RIO+20. Baseados nela, nos unimos ao apelo da convocatória do grupo facilitador brasileiro criado por um conjunto de coletivos resumido nesta frase: "Cabe a sociedade civil organizada chamar a atenção mundial sobre a gravidade do impasse vivido pela humanidade, e sobre a impossibilidade do sistema econômico, político e cultural dominante apontar e conduzir saídas para a crise. Mas é também da sua responsabilidade afirmar e mostrar outros caminhos possíveis”.

Jean-Pierre Leroy é:

Educador, assessor da Área de Meio Ambiente e Desenvolvimento da FASE -Solidariedade e Educação e membro da Coordenação do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento.

FONTE: techoje

domingo, 1 de maio de 2011

História indígena e história ambiental


Por Victor Leonardi

Hoje em dia, é muito comum ouvirmos falar dos graves problemas ambientais, ou até mesmo convivermos com eles. São gigantescos incêndios florestais, desmatamento indiscriminado, uso abusivo de agrotóxicos nas plantações – contaminando agricultores e consumidores dos alimentos -, poluição dos rios por mercúrio e outros dejetos etc.

Nas cidades, os automóveis e as chaminés das fábricas expelem gases que tornam o ar irrespirável. O acúmulo de lixo, muitas vezes tóxico, e a falta de condições sanitárias ideais reduzem a qualidade de vida dos moradores.

Como a consciência das questões ecológicas aumentou muito nas últimas décadas, tem-se a impressão de que a gravidade desses problemas é coisa recente. Na verdade, o que há mesmo de recente é a amplitude global que eles alcançaram. O desmatamento das florestas e a poluição do ar, da terra, dos rios e dos mares tem sido tão intensa, em todo o mundo, que hoje o planeta inteiro está ameaçado.

Mas a destruição do meio ambiente é um problema muito antigo, que atingiu diferentes sociedades desde épocas remotas. No Brasil, em particular, o uso indiscriminado dos recursos naturais pode ser registrado desde o primeiro século da colonização.

Há um ramo da pesquisa histórica, denominado ‘história ambiental’, que se dedica a estudar as crises ambientais do passado. Mais do que registrar apenas essas destruições, a história ambiental procura entender a maneira pela qual as diferentes sociedades, em diferentes épocas, se relacionaram com a natureza.

Os conhecimentos produzidos por outros ramos do saber, como a antropologia, ajudam os historiadores ambientais a constatar que outras sociedades mantiveram uma relação muito mais harmônica, equilibrada e respeitosa com o mundo natural do que as sociedades do Ocidente.

Conhecimentos indígenas de agricultura e botânica

Pesquisas recentes na Amazônia e no Centro-Oeste já revelaram que a literatura tradicional a respeito da agricultura indígena estava equivocada. Segundo as ideias aceitas até há bem pouco tempo, o fogo teria sido a única forma de manejo da terra utilizada pelos índios até a chegada dos europeus. Mas, na opinião de alguns pesquisadores, essas ideias são errôneas. Pesquisa realizada na aldeia de Gorotire, em 1985, revelou que os kayapó praticavam até o reflorestamento, a partir de uma concepção do meio ambiente distinta daquela que predomina nas sociedades ocidentais.

Os pesquisadores apresentaram aos atuais habitantes diversas amostras botânicas, perguntando seu nome na língua indígena, seus usos e a prática de manejo associada àquelas plantas. Posteriormente, as amostras foram cientificamente identificadas pelo museu Emílio Goeldi, do Pará. Das 120 espécies inventariadas, os indígenas haviam considerado úteis 118, das quais 75 por cento eram espécies por eles plantadas!
Os estudiosos concluíram que esse sistema harmonioso de manejo do cerrado, com benefícios substanciais não só para o homem, mas para o próprio meio, se desenvolveu ao longo de muito tempo, tendo sido amplamente praticado no passado.

Os estudos de etnobotânica levaram à surpreendente conclusão de que muitos dos ecossistemas tropicais que consideramos naturais podem ter sido, na verdade, organizados por povos indígenas.

Outro exemplo interessante se relaciona com a apicultura. Em um congresso científico realizado no estado do Pará, alguns indígenas convidados deram uma verdadeira aula para os acadêmicos presentes, transmitindo seus vastos conhecimentos a respeito das abelhas, principalmente no que se refere a espécies amazônicas, ainda pouco estudadas por zoólogos e biólogos.

Esses cuidados para com a natureza, por parte dos kayapó e de outros povos indígenas, contrasta com a atividade daninha e devastadora de muitos empreendimentos contemporâneos na Amazônia, tanto na mineração como na pecuária.

Parece que a destruição do meio ambiente é uma das poucas tradições que podemos inventariar na história do Brasil, sem interrupções, desde o século 16.

No primeiro século da colonização, a exploração do pau-brasil foi tão intensa que, depois de bem pouco tempo, a madeira já rareava no litoral e era preciso ir procurá-la no interior, a 60 ou 120 quilômetros da costa.

Na verdade, os problemas ambientais vêm se acumulando no Brasil há dois ou três séculos. Por exemplo: há registros de uso indiscriminado de queimadas, acúmulo de detritos pela exploração mineral e poluição dos cursos d’água por mercúrio desde o século 18.

Acredita-se mesmo que poderia haver uma correlação entre a poluição por mercúrio e a grande incidência atual de debilidade mental e má formação congênita na população de certas cidades do interior de Goiás, nas quais a mineração foi intensa no final do século 18. Os casamentos consangüíneos, por si só, não explicariam tamanha incidência.

Essa hipótese foi levantada a partir da prospecção realizada na região, em 1987, por arqueólogos da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, revelando a existência de altíssima concentração de mercúrio nos sedimentos dos garimpes, soterrados há mais de século e meio.

Modelos agrícolas e espaço geográfico

Analisando os resultados da atual política governamental de incentivos fiscais na Amazônia, o engenheiro florestal Shigeo Dói concluiu que 97 por cento dos projetos agropecuários fracassaram, deixando como resultado desse ‘antimodelo’ de desenvolvimento econômico “40 milhões de hectares de floresta devastados, sem nenhum benefício em troca”. A devastação tornou-se tradição no Brasil, unindo o século do pau-brasil ao final do século 20.

O mais interessante no estudo desse engenheiro florestal é sua conclusão, de que “observando a roça dos silvícolas, que utilizam o método natural, o resultado é fantástico”. Ele propõe então a substituição do atual modelo agressivo, que canaliza recursos para a destruição, por um modelo conservacionista, direcionado para a oferta de produtos tropicais nativos, que poderia ser viabilizado, segundo ele, por um sistema de “fazendas florestais”.

Não cabe aqui analisar a viabilidade dessa proposta; fica apenas constatada a valorização das técnicas agrícolas dos homens ‘primitivos’ – cujos conhecimentos até hoje os estadistas brasileiros subestimam – por um engenheiro florestal.

Algumas descobertas arqueológicas feitas na Amazônia tornam ainda mais questionável essa ideia de primitivismo. Os pesquisadores constataram, por exemplo, que a agricultura indígena no alto Amazonas era quase sempre acompanhada por um processo de transformação manufatureira de produtos da terra – como a mandioca, com a qual se fabricava farinha, em grandes fornos construídos especialmente para esse fim.

Por meio de datação com carbono 14, hoje podemos afirmar com certeza que os fornos de farinha existiam e eram utilizados no norte do Brasil há pelo menos 2 mil anos. Portanto, embora também se dedicassem à caça, as populações indígenas da época não podiam ser descritas, conforme faziam observadores menos atentos, como “hordas de caçadores selvagens”.

Entre os traços culturais do ameríndio brasileiro merecem destaque os conhecimentos topográficos, isto é, a capacidade de se localizar e de representar o espaço percorrido. E, como conseqüência, a cultura geográfica inerente a essas faculdades.

Os tupinambá, por exemplo, além de conseguirem percorrer com facilidade centenas de léguas, eram dotados de um maravilhoso sentido de orientação, sendo os melhores guias, no sertão. Acompanhavam o giro do sol e seu caminho entre os dois trópicos, conheciam vários planetas, estrelas de primeira grandeza e constelações, que designavam por diferentes nomes, quase todos de animais. A essa astronomia de orientação correspondia, logicamente, uma aguda percepção do espaço geográfico e grande capacidade de representá-lo.

As múltiplas visões de mundo dos indígenas brasileiros, associadas a todo um complexo cultural, social e emocional, se desenvolveram ao longo de alguns milhares de anos, com total independência histórica em relação às tradições culturais européias e asiáticas.

As línguas e o ambiente

Os índios tukano do rio Uaupés, no Amazonas, dominam com perfeição numerosas línguas; são inúmeros os homens e mulheres que falam de três a cinco línguas, havendo até alguns poliglotas que dominam oito ou dez idiomas! Nesse aspecto, o rio Uaupés é uma área única no mundo. Esse rio fica no imenso município de São Gabriel da Cachoeira, que possui o maior número de aldeias indígenas do Brasil, abrigando povos de línguas tukano, maku, baré e baniwa.

Diante de um fato cultural tão extraordinário como o poliglotismo tukano, percebe-se como os preconceitos deformaram inúmeras teorias da história surgidas na modernidade.

É simplesmente um absurdo considerar ‘inferiores’, ou ‘atrasados’, homens e mulheres capazes de se expressar em diversos idiomas!

E não se pode esquecer que isso ocorre no interior do estado do Amazonas, onde a maior parte dos brasileiros não sabe falar outra língua além do português.
O utilitarismo imediatista e a procura constante da maximização, que predominam na mentalidade de mercado, reduzem a espécie humana ao Homo economicus. Se não fosse isso, nós, brasileiros, já teríamos percebido que temos muito a aprender com os povos indígenas que há milênios habitam essa imensa área que é a Amazônia e a região Centro-Oeste, território que mal começamos a estudar do ponto de vista botânico -e ecológico. Os conhecimentos empíricos desses povos não deveriam ser subestimados, como hoje acontece, por aqueles que sistematizam, explicam e teorizam.

Mas, como conseguir uma cooperação pacífica no estudo da natureza amazônica, quando essa mesma natureza vem sendo destruída a um ritmo cada vez maior?

A ocupação da Amazônia, desde o início da construção das grandes rodovias e ferrovias, de 1960 em diante, tem sido literalmente catastrófica do ponto de vista ecológico. Ao observar isso, vemos o quanto existe de chauvinismo por trás da palavra ‘atraso’. Se essa grande floresta continuar sendo destruída por tecnologias sofisticadas (há até usinas siderúrgicas utilizando carvão vegetal), só restará aos filósofos rever a noção de cultura, pois os índios ‘atrasados’ jamais ameaçaram a região, nos milhares de anos que vivem por ali.

A alternativa não seria uma volta às estratégias de sobrevivência do Neolítico, mas sim o fim do casamento tradicional entre ‘progresso’ e destruição. Ou entre destruição e cultura, tal como o Ocidente vem promovendo há mais de cinco séculos.

Uma tecnologia que se espalha destruindo a natureza, como vem acontecendo na Amazônia, não indica desenvolvimento de forças produtivas, mas sim de forças destrutivas.

Essas observações não têm apenas um sentido polêmico, ou um conteúdo de denúncia: fazem parte de nossa tentativa de compreender melhor a natureza das contradições presentes nessa sociedade.

Quando centenas de milhares de hectares de floresta – milhões de hectares, nos últimos anos – são queimados anualmente, para nada, a não ser por um lucro de curta duração, é mais do que necessário pensar no absurdo de empregar o termo ‘civilização’ para designar a extensão desse holocausto pelas áreas amazônicas.

FONTE: Originalmente publicado no Caderno da TV Escola 2 – A Idade do Brasil, editado pelo MEC em 1999


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A Terra estará a viver a sexta extinção em massa por causa das alterações do clima


Por Teresa Firmino

Qual vai ser o impacto das alterações climáticas na árvore da vida, no final do século XXI? Pela primeira vez, um artigo, publicado amanhã, quinta-feira, pela equipa do biólogo Miguel Araújo na revista Nature, avaliou os efeitos das alterações do clima na árvore da vida. A Terra pode estar a viver a sexta extinção em massa, desta vez pela mão humana, se não forem travadas as emissões de gases com efeito de estufa.

Já houve cinco momentos de desaparecimento maciço de biodiversidade, causados por fenómenos geológicos catastróficos — como a colisão de um asteróide com a Terra há 65 milhões de anos, que ficou famosa porque, entre os desaparecidos, estavam os dinossauros. Agora, devido às alterações do clima pela acção humana, há a tese de que a Terra estará a viver a sexta extinção em massa.

Mas uma vaga de desaparecimentos tem de cumprir quatro condições para ser uma extinção em massa, explica Miguel Araújo, coordenador do pólo na Universidade de Évora do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos: tem de ocorrer de forma generalizada em todo o mundo; num período de tempo geológico curto; envolver grandes quantidades de espécies; e afectar espécies de um leque vasto de grupos biológicos.

Por exemplo, se as extinções afectarem muitas espécies só de algumas partes da árvore da vida, as extinções serão dramáticas, com impacto nos ecossistemas, mas não será a sexta extinção em massa, diz Araújo, titular da cátedra Rui Nabeiro em Biodiversidade, a primeira criada em Portugal com fundos privados (cem mil euros anuais, por cinco anos).

À procura de resposta, a equipa do biólogo, que inclui Wilfried Thuiller, entre outros cientistas da Universidade Joseph Fourier, em França, reconstruiu as relações evolutivas de grande número de espécies de aves, mamíferos e plantas, estudando o caso da Europa. Nestas relações evolutivas, a equipa projectou depois as conclusões para o risco de extinção das espécies. Teve em conta quatro cenários de alterações climáticas, consoante estimativas distintas de emissões de gases de estufa, até 2080, e usando modelos que reproduzem o clima da Terra.

Para estudar como as alterações climáticas actuais poderiam afectar a evolução da árvore da vida, foi ainda necessário distinguir as extinções causadas pelas mudanças do clima das que ocorreriam ao acaso. Para tal, a equipa removeu aleatoriamente “ramos” exteriores da actual árvore da vida, para ver até que ponto as extinções modeladas na sequência das alterações climáticas seriam diferentes de aleatórias. “Se não diferisse — é o nosso resultado —, estaríamos perante um padrão de extinções não selectivo, que afectaria a totalidade da árvore”, explica Araújo, também do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid. “As alterações climáticas previstas afectam os ramos da vida de forma uniforme, tornando-os menos densos e farfalhudos com o tempo”, diz.

“Outros estudos têm demonstrado que as ameaças humanas afectam determinados ramos concretos da árvore da vida, por exemplo espécies grandes, especializadas em determinados tipos de comida ou habitats, ou anfíbios”, diz. “O nosso artigo demonstra que as alterações climáticas terão tendência a afectar todos os ramos da árvore.”

O estudo não permite dizer, porém, qual o número de espécies que irá desaparecer. E a estes impactos há que juntar outros de origem humana, como a destruição de habitats, a caça e pesca excessivas, a propagação de espécies invasoras e de agentes patogénicos, que afectam mais uns troncos da árvore do que outros. “Como os impactos se adicionam uns aos outros, o futuro poderá reservar-nos um aumento generalizado de espécies ameaçadas que afectará quase todos os ramos da árvore da vida.”

Portanto, as alterações climáticas poderão alterar as contas actuais sobre a extinção das espécies. A Terra está então viver a sexta extinção em massa? “No caso de haver impactes de grande magnitude que afectem um grande número de espécies, o padrão de extinções modelado por nós assemelha-se ao que se esperaria numa extinção em massa, já que estas não afectaram ramos particulares da árvore da vida, mas a sua quase totalidade”, responde Miguel Araújo.

Perdas no Sul da Europa

Outra conclusão é que as espécies do Sul da Europa, que perde biodiversidade, deverão deslocar-se para o Norte. Já hoje, aliás, as alterações do clima estão a empurrar mais para norte espécies de aves e borboletas.

É também provável que espécies do Norte de África entrem no Sul da Europa — “o que já está a verificar-se com algumas aves e insectos”. Os recém-chegados tanto podem trazer mais biodiversidade, como acentuar a perda de espécies por competição ou novas doenças. “É difícil prever as consequências destas colonizações. Mas, havendo um mar entre os dois continentes, só espécies capazes de o atravessar podem colonizar a margem Norte, o que limita a diversidade de colonizadores.”

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A interação meio ambiente / congo da Barra do Jucu

O CONGO NA BARRA DO JUCU
Por Homero Bonadiman Galvêas  

O congo, que ganhou notoriedade, até internacional, é uma manifestação que tem, segundo Geraldo Pignaton e Kleber Galvêas, como fundamento a capacidade de ser muito espontânea, narrar as tradições, os costumes do cotidiano local do seu povo, as coisas que acontecem no dia a dia da comunidade, servindo como verdadeiro jornal do lugar; falando das pescarias, fatos curiosos, caçadas, sobre aventuras, amores, desilusões, reclamações locais, entre outras questões. A capacidade de improvisação de versos que estes homens possuem é grande, “eles ficavam o dia todo no mar pescando, na mata caçando ou fazendo lenha e no rio navegando e pensando nos acontecimentos locais e preparando novos versos para a próxima congada.”

Mas com a mudança forçada de boa parte das atividades econômicas, o contato pessoal com a comunidade foi sendo perdido, pois saiam daqui às 6 horas da manhã e voltavam às 7 da noite, cansados. Assim indo varrer ruas e em grupos separados, o congo foi perdendo aos poucos esse lado interessante, do jornal, do improviso, do repente, parecido com o nordestino, uma marca registrada. Mas ainda mantém alguma coisa, mas longe do que era antes.

O congo, por muito tempo foi visto com maus olhos por certa parcela da comunidade barrense mais abastada. Poucas pessoas acompanhavam o congo, fora os que gostavam de tocar. Estes sofriam com muito preconceito da nossa sociedade ainda muito tradicional e conservadora, confundiam o congo com macumba, recriminavam por causa da bebida, que era coisa do diabo, além das discriminações econômicas. Alguns da elite local diziam que aquilo era brincadeira de preto. Os negros não eram bem vindos a esta comunidade, eram postos para correr daqui, segundo “Seu Daniel”. Pode-se notar que até hoje é difícil ver um negro morando nessa região, no congo quase não tinha, hoje as coisa mudaram muito, a integração é bem maior nesse sentido.

As igrejas evangélicas também começaram a influenciar os conguista dizendo que era macumba, coisa do diabo, sem tentar fazer uma análise mais profunda da manifestação e conseguiram tirar vários elementos do congo e perturbar a cabeça de outros.

Meninos e rapazes aqui da Barra até a mando dessas pessoas que não gostavam, aprontavam de várias maneiras com o congo, jogando pedras dentro dos tambores, bombas e urina nos conguistas, empurrando os velhinhos, jogando água de chuva. Segundo Kleber e Geraldo, para tocar, depois das 10 horas da noite só subornando o delegado local. Para tocar na festa de São Benedito e não precisar subornar o delegado, tinha que se pagar uma taxa na coletoria estadual em Vila Velha.

Poucas pessoas chamavam a banda para tocar. Sebastião Maria, o juiz de paz do lugar era um dos poucos, tirando um ou outro aniversário e a festa de São Benedito, não se tocava mais em lugar nenhum, nem em bares, nem restaurantes.

A igreja, católica também com administradores muito conservadores, não deixava os conguistas entrarem na igreja, nem abriam a porta da igreja centenária e uma vez chegaram a tirar o mastro do buraco e a reter a bandeira. Outra vez um morador roubou a bandeira de São Benedito e vendeu para pessoas de Brasília. Mas segundo a lenda Mestre Honório pediu tanto a São Benedito que a bandeira pintada de um lado por Haid Liebermann e do outro por Kleber Galvêas reapareceu aqui na Barra, e foi entregue nas mãos do mestre.

Para reverter este estado de coisa Kleber se utilizou de um meio, que é por excelência, reprodutor dessa sociedade de consumo capitalista, a mídia. Como no caso do tombamento de Jacaranema, chamou a imprensa escrita e falada e os instruiu para fazerem uma série de entrevistas esclarecendo o que era o congo e massificou essa informação através de jornais e televisão. Conseguiu assim, através de entrevistas cedidas pelo Mestre Honório e o Presidente Alcides, diferenciar o congo da Macumba e sensibilizar boa parte da população para o real significado do congo. Contou para isso também com a grande ajuda dos amigos, Paulo de Paula, Júlio Fabris, Antônio Americano, Jairo de Brito e Darly Santos. Geraldo.

A história do congo na Barra do Jucu se divide em 3 momentos:

O primeiro acontece com a vinda de Manoel Nunes de Palmeiras, do Morro dos Monos, no interior de Guarapari, para a Barra do Jucu com alguns tambores no início dos anos 50. Ele era pai de Pedrinho e tio de Paulo Nunes. Depois da sua morte, Maria Luiza Valadares, tomou conta do congo por alguns anos, mas se casou com um homem que não gostava do congo e ela parou com a banda em meados dos anos 70.

O segundo momento se dá com a mudança de “Seu Alcides” para a Barra do Jucu, já comentada. Ele vem com 2 tambores em 1968 e se une a “Seu Justino”, também ex-morador de Jaguarussu. Com o apoio da Prefeitura, ele pega os tambores que estavam estragando na casa de Maria Luisa e forma uma banda de congo, com: “Seu Honório”, Ozório, Avigêncio, Hidelbrando, Zé Silva, Daniel, Antônio Biju, João Amaral, Sebastião Maria, Júlio Valadares, “Seu Delcy”, Haroldo, Giovani, Honofre, João Bagaceira, João Bina, entre outros. Seu Alcides foi um homem de suma importância, foi um dos pioneiros e mantenedores do congo na Barra do Jucu, dos anos 60 aos 90.

Chegaram no início dos anos 70 Kleber Galvêas e Dr. Geraldo Pignaton, fazendo parte da banda. No início dos anos 80 “Seu Alcides” resolve, vender a banda. Passava por grandes necessidades financeiras e havia se ligado a uma igreja evangélica que se instalou ao lado de sua casa. Então, Geraldo, que tinha melhor condição financeira, comprou a banda de congo, pois senão ela poderia ser vendida separadamente para pessoas de fora como suvenir. O congo iria acabar na Barra. Geraldo, comprou sabendo dos preconceitos que o congo sofria na Barra e não tendo lugar para guardar os tambores, passou a chamar o pessoal, inclusive “Seu Alcides”, para tocar na Fazenda Camping, que era de seu pai. Promete que o Congo ainda voltaria para a Barra e “por cima”.

O congo começa a viajar pelo Brasil, a ser notícia em rede nacional, a ir para o Rio de Janeiro, a tocar no Teatro Municipal do Rio. Foi a única manifestação folclórica nacional a se apresentar lá em 185 anos de história do teatro. Apresentou-se também no Circo Voador, Universidades e como ápice de tudo isso, vem a gravação da música Madalena por Martinho da Vila, que alcança destaque internacional. Isso tudo durante o período em que a banda esteve sob a coordenação de Geraldo Pignaton. Nessa época, além de alguns dos conguistas citados anteriormente, no início da década de 80 entrou uma nova geração, composta por: Buchecha, Chumbinho, Jadir (filhos de Paulo Nunes), Rose e Zé Luiz, que substituíram os velhos dando sangue novo à banda.

Apesar das confusões daí geradas e bem explicadas nas entrevistas, após e durante essa divulgação massiva, o povo da Barra começou a reclamar a volta do congo, e isso aos poucos foi acontecendo. Os que ainda eram contra tiveram que suportar a Banda, que realmente voltou por cima, em alto nível, como havia prometido Geraldo. Ser congueiro agora dava status, isso aconteceu nos finais dos anos 80 e início dos 90.

O pessoal da igreja, notando o esvaziamento, chamou um padre ligado a Teologia da Libertação, ele compreendeu que quem ia no congo eram as mesmas pessoas que iam à igreja. Então passou a deixar o congo tocar dentro da igreja. Esse processo de valorização do folclore parece ter se espalhado pelo Brasil todo. Ficou definitivamente para trás os dias em que o congo para se apresentar na Barra tinha que tirar licença na delegacia e pagar a taxa na coletoria estadual.

Então a banda atingiu um grau de importância que nunca havia conseguido antes, influenciando o surgimento de outras bandas, em outros lugares e o fortalecimento dessa manifestação cultural em todo nosso Estado. Antes quase havia acabado por 2 vezes.

Hoje em dia, ganha-se até cachê para tocar. Isto é importante, pois os integrantes estão sempre passando por sérias dificuldades financeiras. Mas por interesses de algumas pessoas, a banda já deu origem a outras duas bandas nos últimos 10 anos. Com a entrada de dinheiro, poder e status, parece que atraiu confusão. É muita gente querendo ser dono de banda de congo e mandar. A banda foi registrada e tem estatuto podendo captar recursos.

Assim a disputa pelo poder acabou formando outras bandas. O grande problema hoje é que tem muita gente querendo mandar no congo e os conguistas, percebendo essa realidade estão desgostando de participar.

O congo, em termos de auto estima do conguista, vive hoje o seu melhor momento sem dúvida, e atrai um bom número de turistas para a Barra. Apesar disto não beneficiar a todos da mesma forma, esse turismo não é predatório, até agora. Geralmente são estudantes, intelectuais e músicos.

Desde há muito tempo Portugal estabeleceu uma relação de poder com os negros, que se tem notícia desde o século XV, pois nessa época o negro das colônias africanas já ia ser escravo em Portugal, a Metrópole.

Daí é que vem o sentido de se ter um santo como São Benedito e uma santa como Nossa
Senhora do Rosário. O primeiro é a encarnação do Preto Velho de Angola, a segunda toma as formas de Iemanjá do culto afro e de Iara das águas, do culto indígena. Estes santos têm como papel principal identificar o seu público alvo em sua posição na escala social de subserviência.

Segundo Geraldo Pignaton, São Benedito foi um frade mouro, que foi tingido de preto para parecer com o Preto Velho de Angola. Ele era submisso aos padres do lugar. O negro sendo igual a ele, seria salvo, era só ser submisso em sua condição social.

Mas estes santos têm em sua criação um peso da mediação e resistência. Representam negros e índios que passam a querer e pressionar por santos seus na religião dominante e conseguem. São Benedito é, por exemplo, o único santo negro da igreja. Isto é sinal que apesar de todo o aparato ideológico e lendarização a que foi submetido, ele também é resultado da resistência negra, pois para os negros serem integrados, os poderosos tiveram que ceder e criar um santo negro. “São Benedito é milagroso, mas quem não segue as normas é castigado na hora.” Segundo o costume popular.

Segundo Kleber, a primeira festa de São Benedito de que se tem notícia na Barra do Jucu, com a fincada do mastro, ocorreu em 1975. O mastro tem um poder mágico para os participantes da festa que fazem vários pedidos e acreditam no poder do santo. O mastro é uma das manifestações lusobrasileiras mais antigas, sempre com esse poder mágico invocado e com uma bandeira com imagem de santo em seu alto, variando o santo e sua representação conforme a comunidade.

Segundo Geraldo, o congo da Barra é o somatório de pessoas que vieram de várias bandas diferentes, e cada banda tem uma batida diferente, dependendo de sua composição étnica. A da Barra foi sendo fundada por pessoas que iam saindo de lugares onde as bandas foram acabando, Jaguarussu, Itapuera, Palmeiras, etc, formando assim uma banda com grande variação de ritmos, sendo uma banda diferente das demais, que tinham uma batida definida. A banda da Barra catalisou o ritmo e a batida de várias bandas da região, fazendo assim um som bem característico e eclético.

O congo tem sua origem, segundo o professor Guilherme Santos Neves, da mistura entre brancos, negros e índios. Ele dá o pioneirismo aos índios que há muitos séculos já batiam seus guararás (tambores), esfregavam suas casacas, instrumento tipicamente indígena e do Espírito Santo e agitavam seus manacás (chocalhos). Depois começam a receber a influência dos negros na designação dos instrumentos, no ritmo, na dança, no nome da manifestação, na inclusão de novos instrumentos como a cuíca. O Português também influi, através da religiosidade católica e na forma de dança, além da própria língua.

Geraldo Pignaton destaca para nós que o congo se fortaleceu onde os jesuítas estiveram presentes, pois nessa época era parte da composição ideológica, como uma das poucas diversões da época. Nos aldeamentos e fazendas conviviam em maior ou menor grau de amizade ou proximidade, negros, índios e portugueses, todos com o seu lugar social pré-estabelecido. Daí deve ter surgido o congo das reduções jesuíticas. Os negros, como escravos, os índios como alma a ser salva e caçadores de escravos fugidos e os portugueses coordenando o sistema com mão de ferro.

Mas o congo sempre foi muito mais que uma diversão e uma reunião social. Servia, como já foi dito, como um jornal improvisado do local e como forma de reclamar e de formular revoltas. Alguns jongos (músicas do congo) mantêm essa característica até hoje.

Dependendo da composição étnica da banda, mais negra, mais índia que são os componentes centrais, o congo vai ter uma batida diferente.

Segundo Daniel e Geraldo, “Seu Honório” foi um homem muito importante para o congo. Ele previa as coisas, era um grande conhecedor das plantas medicinais, uma espécie de curandeiro local (pajé). Fazia uma pesquisa constante e tinha grande conhecimento dos ritmos do congo e das formas de fazer os instrumentos. Era exímio pescador e lá de Itapuera sabia quem estava e quem não estava tocando congo aqui na Barra, pois cada conguista tinha um jeito de tocar. Não deixava fazer pout-porri de músicas, tocar músicas com a mesma melodia em seqüência e tocar jongos que tivessem ligação com pontos de macumba. Era um grande mestre que vários entrevistados apontaram ser difícil de ser superado. Mestre Honório de Oliveira Amorim, junto com o Presidente Alcides Gomes da Silva eram a alma da banda. Os dois já falecidos, o primeiro em 1993 aos 78 anos e o segundo aos 94 anos em 1990.

Atualmente existem 3 bandas de congo na Barra do Jucu. A primeira, que segundo Geraldo, é histórica, é denominada hoje como a do Mestre Honório. Seu mestre atual é “Seu Daniel”, conguista de grande experiência com mais de 30 anos de congo. A segunda, do Mestre Alcides, se desmembrou da primeira após uma confusão ocorrida depois do caso Martinho da Vila e por interesse de algumas pessoas. Tem como mestre atualmente “Seu Zé Silva”, conguista há longa data e filho de “Seu Alcides”. Foi formada em 1990. E a Tambores de Jacaranema. Fundada em 2000, após uma dissidência no interior a Banda Mestre Honório, por causa da falta de prestação de conta, após o lançamento do CD da banda. Mestre Beto Pêgo, 13 anos de congo, resolve tirar seu grupo da banda, pois ele é que estava no poder na época da gravação do CD, a partir daí Danieléonovo mestre e é fundada a nova banda, Tambor de Jacarenema.

Este CD foi o primeiro de uma banda de congo a ser gravado e lançado no Espírito Santo, inserindo o folclore no mercado fonográfico local e divulgando ainda mais essa manifestação cultural. Após 1 ano e meio de seu lançamento, começaram a cobrar a prestação de contas, que ainda não havia sido feita com clareza pela antiga diretoria. Rolou dinheiro, começou a confusão.

No congo, o processo de mediação é intenso. Enquanto ele perde algumas características ancestrais, vai cedendo espaço a novas influências, dessa nova sociedade “globalizada” e as vai revertendo em seu benefício.

Os jongos vão perdendo aos poucos o improviso e vão ficando só os versos consagrado, outros vão se perdendo. O dinheiro e o poder vão subindo à cabeça. A utilização dos meios de comunicação e do mercado fonográfico, através de disco próprio e a gravação de suas músicas por artistas famosos que se utilizaram do ritmo para fazerem a divulgação massiva desta manifestação cultural, fizeram aumentar a auto estima dos componentes e o conhecimento da manifestação pelo povo em geral. As conguistas passaram a ser muito respeitadas em sua comunidade e a serem chamados para tocar em vários lugares, quase todas as semanas, atraindo um bom número de turistas para a região, principalmente no dia da Festa de São Benedito.

Os grupos de Música Pop., gravarem o ritmo do congo me parece interessante e ajuda na divulgação, valorização e renovação do congo. Mas com duas ressalvas, que estas pessoas participem ou pelo menos tenham um conhecimento mínimo sobre esta manifestação e se começarem a ganhar um bom dinheiro, revertam parte em projetos que beneficiem os conguistas, que são pessoas economicamente carentes e têm o congo como uma das suas poucas diversões. Oficinas de musica, apresentações gratuitas, lutar pela formação de associações de bandas, entre outras alternativas, são bem vindas.

O congo tem um papel muito importante nessa nova sociedade, merecendo ser estudado com grande cuidado. Na sociedade “globalizada” e capitalista, a pressão é pela homogeneização cultural e o congo é uma resistência a essa pressão. Uma força da resistência nessa sociedade, que deve ser muito bem estudada.

Homero Bonadiman Galvêas, filho do pintor capixaba Kleber Galvêas, é historiador autor do livro A história da Barra do Jucu: Gênese da Cultura Capixaba - Desenvolvimento Sócio Cultural da Grande Vitória.

domingo, 7 de novembro de 2010

Um pouco do histórico da destruição e da preservação


Período
Local
Ocorrências
2600 a C. até hoje Líbano: Exploração e uso excessivo da floresta de cedro.A exploração do cedro pelos fenícios e egípcios durou séculos, pequenos bosques ainda existem.
2500 a C. até 900   Império Maia: Erosão do solo, perda da viabilidade dos agroecossistemas e assoreamento dos recursos hídricos.Partes do atual México, Guatemala, Belize e Honduras; agricultura era criativa e intensiva; em algum momento a demanda aumentou e o sistema agrícola entrou em colapso.
800 a C. até 200 a C.  Grécia: Desflorestamento e uso intenso do solo.Florestas foram derrubadas para fins agrícolas, utilização de madeira para cozinhar e aquecer.
50 a C. até 450 a C.  Império Romano: Desertificação e perda de viabilidade de agroecossistemas no norte da África.Demanda intensa por grãos em todo o império exauriu essas terras, que tinham um alto potencial de erosão.
1800 até hoje   Austrália e Nova Zelândia: Perda da biodiversidade e proliferação de espécies invasivas.Cem anos de introdução de ovelhas e gado aniquilaram gramíneas nativas e, conseqüentemente muito da biodiversidade local.
1800 até hoje  América do Norte:  Conversão de habitats para agricultura e pastagens.Manada de bisões estimados em mais de 50 milhões, chegaram próximas da extinção.
1800 – 1900  Alemanha e Japão: Envenenamento industrial-químico dos sistemas de água doce.As conseqüências da Revolução industrial provocaram um grande impacto nas águas doces desses países.
1928 até hoje   Planeta Terra: Substâncias químicas industriais degradam a camada de ozônio protetora. Agrotóxicos acumulam-se em toda a cadeia alimentar.Os clorofluorcarbonos (CFCs) são compostos voláteis usados em aparelhos de refrigeração, solventes e aerossóis. A previsão para o fim de sua produção é 2010. O DDT já foi detectado em leite materno.

1.       “No Brasil o sanciona mento de uma lei, em 1861 pelo imperador D. Pedro II para proteger a Floresta da Tijuca que se encontrava totalmente degradada;
2.       Na Inglaterra, primeira lei ambiental em 1863, o Alkali Act, para regular a emissão de poluentes no ar pela indústria de vidro da época;
3.       Nos EUA, em 1872, criação do Parque Yellowstone, o primeiro parque nacional;
4.       Reunião de um grupo de cientistas, o Clube de Roma, na década de 1960, com a divulgação do relatório Limits to Growth (Limites do Crescimento), com projeções sobre os riscos e limites Década de 1960; criação dos primeiros grupos ambientalistas, preocupados com a contaminação da água e ar dos países industrializados;
5.       Tratado Antártico, em 1961, determinando o uso do continente apenas para fins pacíficos;
6.       Publicação do livro Silent Spring (Primavera Silenciosa), em 1962, falando sobre a conseqüência do uso de pesticidas como o DDT, que não só matavam os insetos mas envenenavam os pássaros também ;
7.       Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em 1972, em Estocolmo. Os países começam, então, a criar órgãos ambientais e leis para o controle da poluição;
8.       Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies de Flora e Fauna Selvagens em perigo de Extinção (Cites), em 1973;
9.       Estabelecimento da relação entre os CFCs (clorofluorcarbonos) e a destruição da camada de ozônio;
10.   Década de 1970, crise do petróleo, com o aumento do preço, mostra a necessidade de racionalização do uso da busca de fontes renováveis de energia;
11.   Década de 1980, leis em vigor exigem controle para as emissões nas indústrias; entram os estudos de Impacto Ambiental e Relatórios de Impacto sobre o Meio Ambiente (EIA-RIMA);
12.   Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, em 1982, para proteger o mar contra o despejo de rejeitos nucleares e resíduos tóxicos;
13.   Década 1980, a proteção ambiental passa de defensiva, com soluções apenas corretivas, para uma ação proativa e participativa, surgindo assim o conceito da ecoeficiência, de maneira a produzir produtos de melhor qualidade com menor uso de recursos, poluindo menos e substituindo materiais que geram impactos relevantes;
14.   Acidentes na década de 1980 que chamaram a atenção para a necessidade de prevenção de riscos ambientais: Bhopal, na Índia; acidente nuclear em Chernobyl, antiga União Soviética;
15.   Criação, na Alemanha, em 1987, de um sistema para receber e destinar as pilhas e baterias descartadas após o uso;
16.   Protocolo de Montreal, em 1987, para a proteção da camada de ozônio, através da eliminação da fabricação dos CFCs;
17.   Relatório da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, o Relatório Brundtland, em 1987, que difundiu a idéia de Desenvolvimento Sustentável;
18.   Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92,
19.   Década de 1990, disponibilidade das normas internacionais em gestão ambiental da série ISO 14000, visando à conservação do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável;
20.   Protocolo de Kyoto, em 1997, para redução até 2012, das emissões dos gases que contribuem para o efeito estufa pelos países industrializados”.
E ainda, recente relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas-ONU (2007) sobre estudo feito pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)  que constata que as atividades do homem têm contribuído para o aquecimento global, trazendo uma série de conseqüências ao meio ambiente, como inundações com derretimento de geleiras, desertificação, entre outras. Hoje já se fala em refugiados do clima, e sabe-se que aqueles que possuem maior recurso econômico poderão viver em regiões mais seguras, escolher os lugares que ofereçam menos risco à sua sobrevivência, cabendo à população de baixa renda as áreas mais expostas aos riscos de enchentes, frio, calor e  seca.
É necessário uma mudança de comportamento pois a Geração Futura somos nós.

VALLE, Cyro Eyer do. Qualidade Ambiental: ISO 14000.5º ed..São Paulo: SENAC, 2004.

sábado, 30 de outubro de 2010

Países fecham acordo para proteger biodiversidade

Representantes de mais de 190 países reunidos em Nagoia, no Japão, aprovaram nesta sexta-feira um acordo histórico que, se implementado, deve combater ameaças à biodiversidade até 2020 e dividir melhor os recursos obtidos pela exploração do material genético da natureza.
As principais decisões finais do 10º encontro da convenção da ONU sobre diversidade biológica (CBD, na sigla em inglês) são um protocolo sobre como dividir os benefícios representados pela biodiversidade (em inglês, Access and Benefits Sharing, ou ABS) e um plano de ação para proteger as espécies ameaçadas até 2020.
Ambos podem render muito ao Brasil. A estimativa é de que países ricos abram os cofres até 2012 para garantir cerca de US$ 200 bilhões por ano em investimentos de conservação na biodiversidade. A verba deve ser liberada a tempo para a segunda Cúpula da Terra, a ser realizada em 2012 no Rio de Janeiro.
Ainda não está claro, entretanto, de onde essa verba deve sair, uma vez que muitos países ricos se encontram em crise e já se comprometeram em dezembro do ano passado a levantar cerca de US$ 100 bilhões por ano para combater os efeitos das mudanças climáticas.
Os signatários têm agora um prazo de dois anos para estabelecer como o novo financiamento será feito.
Biopirataria
O valor da biodiversidade de cada país também deve entrar nas contas públicas, de forma a possibilitar os cálculos que vão nortear os investimentos internacionais.
Esta medida foi considerada um grande avanço, já que pela primeira vez atrela a diversidade biológica da natureza à economia.
Já o chamado ABS é fundamental para proteger os países da chamada biopirataria, o registro feito por indústrias como as farmacêuticas - na sua maioria com sede em países desenvolvidos - de substâncias retiradas de seres encontrados em outras regiões.
O acordo fechado nesta sexta-feira prevê o pagamento de royalties por propriedade intelectual aos países de origem do material. Com isso, países como o Brasil e outros donos de imensa biodiversidade poderão lucrar com o desenvolvimento de medicamentos obtidos a partir de plantas e animais locais.
Depois de intensas negociações, principalmente sobre ABS, o acordo foi elogiado por ambientalistas.
"O protocolo de Nagoia é uma conquista histórica, que garante que o valor muitas vezes imenso dos recursos genéticos seja mais justamente dividido", disse Jim Leape, diretor-geral da organização ambientalista WWF.
Entre as decisões de Nagoia também está uma meta de proteção de 17% das áreas em terra firme, que até 2010 estava em 13%.
Os ministros de meio ambiente concordaram ainda em proteger 10% das áreas marinhas e costeiras, entre elas o alto mar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Clima não é de Guerra

Por Dr.  José Eustáquio Diniz Alves

As mudanças climáticas globais ameaçam a humanidade. O astrofísico Stephen Hawking afirmou, recentemente, que a raça humana vai desaparecer para sempre, caso não inicie a emigração da Terra e a colonização do espaço sideral nos próximos dois séculos. Hawking considera que o ser humano está destruindo o Planeta e o aquecimento global é uma ameaça real que seria impossível de ser detida, em decorrência do padrão de produção e consumo do mundo. Para não ter o mesmo destino dos dinossauros, os humanos precisariam procurar um novo lar.

Porém, devemos pensar em mudar o nosso modo de vida na Terra antes de levar os nossos equívocos para outros planetas. As guerras e o militarismo são sem dúvida as atividades mais poluidoras, improdutivas e desnecessárias para um futuro saudável. Grande parte da poluição, da degradação ambiental e da emissão de gazes do efeito estufa vêm do complexo industrial-militar, da manutenção de exercícios, marinha e aeronáutica e das guerras espalhadas pelo mundo. O ser humano perde vidas, perde tempo e perde oxigênio com as guerras, o terrorismo e o arsenal militar. A vida na Terra teria muito a ganhar com a paz e a desmilitarização do mundo.
Segundo dados divulgados, em 02 de junho de 2010, pelo Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), houve um aumento da despesa militar mundial, em 2009, apesar da crise financeira . As despesas militares de todo o mundo, em 2009, totalizaram cerca de US$ 1.531.000.000.000 (um trilhão e quinhentos e trinta e um bilhões de dólares). Isto representou um aumento de 5,9% em termos reais em relação a 2008 e um aumento de 49% desde 2000.

Toda esta fortuna gasta em atividades improdutivas e de destruição poderia ser redirecionada para mudar a matriz energética do mundo, para mitigar e adaptar os efeitos do aquecimento global e para combater a fome e melhorar a qualidade de vida dos seres humanos e dos demais seres vivos da Terra. A metade destes gastos militares (765 bilhões de dólares por ano) já seria suficiente para promover a transição da economia de alto-carbono para a de baixo-carbono.

Os gastos militares e as despesas de manutenção das forças policiais nacionais são altamente poluidoras e apenas agravam os problemas do aquecimento global. Se estes recursos gastos em destruições e mortes fossem utilizados para mudar o padrão de produção e consumo do mundo, com certeza a humanidade poderia investir na defesa da biodiversidade, na melhoria da educação e no combate às situações de pobreza e vulnerabilidade da população mundial.

Enfim, para evitar as ameaçadoras mudanças climáticas é preciso dizer não à guerra e sim à paz. As guerras e as ações militares não fazem bem ao clima. O mundo precisa de amor generalizado pela vida de todos os seres do Planeta. O mundo não precisa de guerras. Só em clima de paz é possível encontrar soluções para os problemas ambientais da Terra. Como já disse John Lennon: All we are saying is give peace a chance (Tudo o que estamos dizendo é dê uma chance a paz)!

José Eustáquio Diniz Alves, colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; expressa seus pontos de vista em caráter pessoal. 
E-mail: jed_alves{at}yahoo.com.br