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segunda-feira, 26 de março de 2012

Entrevista com a historiadora Lise Sedrez


Entrevista a historiadora Lise Sedrez, professora do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IH-UFRJ)

Não são apenas os biólogos que se interessam por índices pluviométricos ou por troncos de árvores caídas. Historiadores também. São os historiadores da chamada "história ambiental", que desde os anos 1960, aproximadamente, vem se afirmando como um campo de estudos bastante produtivo e interdisciplinar da historiografia. Para saber mais a respeito, conversamos com a historiadora Lise Sedrez, atual professora do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Formada em História pela PUC-RJ, e tendo cursado mestrado e doutorado nos Estados Unidos, Sedrez é uma das maiores referências no Brasil quando o assunto é história ambiental. Confira abaixo como foi esse agradável bate-papo, o primeiro de 2012.

CAFÉ HISTÓRIA: Professora, antes de tudo, muito obrigado por atender o convite de entrevista do Café História. É um prazer tê-la conosco na rede. Começamos esse bate-papo com uma curiosidade ao mesmo tempo acadêmica e pessoal. Quando a chamada história ambiental se consolidou no horizonte dos historiadores e o que atraiu a sua atenção nesta história?

LISE SEDREZ: Oi Bruno. Eu que agradeço o convite. Bom, História ambiental, com este nome, é um produto dos anos 1970, quando se formou a American Society of Environmental History nos EUA. O nome mesmo vem do trabalho de um historiador chamado Roderick Nash, nos 60. É uma transformação na academia que acontece interligada às transformações na sociedades norte-americana, com o crescimento dos “novos movimentos sociais” - o ambientalismo e novo feminismo, por exemplo. Não é por acaso que no mesmo período (anos 1960 e 1970) se desenvolvem os chamados subaltern studies, os novos estudos de gênero (incluindo a queer history), e mesmo os estudos chicanos. Mas, para bem além do que acontecia nos EUA, historiadores há muito se ocupam das relações entre sociedade e natureza. Um dos trabalhos mais interessantes de Engels, por exemplo, discute a poluição na Inglaterra no bojo da Revolução Industrial. Gilberto Freyre escreve o maravilhoso Nordeste, que ele define como uma “história ecológica” - e isto em 1937. Obviamente, não é o mesmo tipo de história, com as mesmas questões metodológicas, quarenta anos depois, mas de resto, nada na historiografia permaneceu o mesmo nestes quarenta anos, nem em campos tradicionais como as narrativas nacionais. Por outro lado, a história do clima depois do ano 1000, de LaRoy Ladurie, mostra que estas novas questões acontecem em ambos os lados do Atlântico. E ninguém que tenha lido o Mediterrêneo de Braudel pode ignorar suas reflexões sobre o “tempo da terra” e as transformações do ambiente.

Já o meu envolvimento com história ambiental tem um quê de paixão e um quê da acaso. Eu me formei em história na PUC nos anos 1990, e estava no Rio de Janeiro em 1992, no Fórum Global, na Rio-92. Era algo contagiante, apaixonante, e eu me envolvi muito com organizações não governamentais, ambientalistas, como o Greenpeace. Alguns anos depois, quando decidi fazer um mestrado, procurei algo nesta área, e aí fui parar em New Jersey, onde o New Jersey Institute of Technology oferecia um Mestrado em Estudos de Políticas Ambientais. Meu orientador lá era John Opie, um historiador fabuloso, e um dos fundadores da American Society of Environmental History. Aí, era um pouco destino. Eu tinha que voltar para a História, mas com este viés. Quando fui para o doutorado, isto já estava muito claro para mim, e procurei programas que tivesse este tipo de abordagem, como a Stanford University, com o prof. John Wirth.

CAFÉ HISTÓRIA:É notável como os governos, as organizações, e as pessoas de uma forma geral estão muito mais interessadas hoje nas questões ambientais do que estavam há 60 ou 70 anos. O que foi determinante para que ocorresse essa “mudança de consciência”? O crescimento da história ambiental é um sinal destes novos tempos?

LISE SEDREZ: Bruno, como falei antes, logicamente há uma relação entre o desenvolvimento da história ambiental como disciplina e este nova percepção da natureza como vulnerável. Na minha pesquisa sobre a baía de Guanabara, isto fica muito óbvio: o sonho dos engenheiros do início do século XX era uma transformação da baía para o embelezamento da cidade, e a baía era quase uma tela sobre a qual se exercitava a excelência da engenharia nacional; no fim do mesmo século, a dor de cabeça é como “salvar” a baía da poluição, do sufocamento por estas mesmas engenharia e indústria nacional tanto celebrados. Há muitos fatores que contribuíram para esta “mudança de consciência”, como disseste. Há momentos chaves no século XX que mudam a percepção das relações entre sociedades e natureza, mas, principalmente, da capacidade das sociedades humanas de transformar drasticamente a natureza. Se quisermos, é possível pensar mesmo num Elisée Reclus, John Muir ou mesmo Aldo Leopold, e sua maravilhosa definição de “ética da terra” e “comunidade biótica”.

CAFÉ HISTÓRIA: A Sociedade Latino-Americana e Caribenha de História Ambiental foi fundada em 2006, reunindo pesquisadores de todo o continente. Qual foi a participação dos historiadores brasileiros nesta sociedade? Podemos dizer que o Brasil é uma potencial regional no que se refere a história ambiental?

LISE SEDREZ: Brasileiros certamente estiveram presentes desde a fundação da sociedade. Alguns nomes que vem imediatamente à cabeça: José Augusto Pádua, Regina Horta, Eunice Nodari e eu mesma. O Brasil é uma referência no que se refere à história ambiental latino-americana, tendo inclusive hospedado o IV Simpósio da SOLCHA, em Belo Horizonte, em 2008. http://www.fafich.ufmg.br/solcha/. Mas não é só isto. A gente tem estabelecido redes de estudos de história ambiental em todo o Brasil, e os contatos com os EUA, que ainda são o maior centro de pesquisas na área, tem se multiplicado. De fato, a UFRJ vai organizar em dezembro de 2012 um simpósio EUA-Brasil sobre os principais temas de história ambiental nestes dois países.

CAFÉ HISTÓRIA: Índices pluviométricos, troncos de árvores caídas, relatórios de poluição física ou atmosférica. Tudo isso pode ser considerado fonte para o historiador ambiental. Mas como é o acesso a esse tipo de fonte? Que tipos de arquivos são visitados por quem estuda a interação do homem com o ambiente, no passado? É um trabalho de pesquisa que se diferencia muito de uma pesquisa, chamemos aqui, de tipo mais tradicional?

LISE SEDREZ: A resposta aqui é sim e não. Certamente a gente entra nos arquivos tradicionais, mas os lê de uma forma diferente. Por exemplo, Emmanuel La Roy Ladurie, na sua história do clima depois do ano 1000, desenvolve um estudo muito interessante do clima medieval, a partir de fontes que já tinham sido analisados por dezenas de historiadores: as longas séries sobre a qualidade do vinho na França e na Alemanha, algumas chegando até antes do século XI. A qualidade do vinho, sua doçura, o quanto é encorpado, tudo isto nos fala também das chuvas, das secas, dos períodos de fome e de fartura. Isto é história ambiental, e o livro foi publicado pela primeira vez em 1971. Além disto, lógico, a gente tem que sair um pouco da zona de conforto. História ambiental é por definição interdisciplinar, e a gente acaba tendo que mergulhar em relatórios científicos, química, física, biologia. Para fazer meu estudo sobre a Baía de Guanabara ao longo do século XX, por exemplo, tive que ler vários textos de engenheiros sanitários, tentando entender conceitos como demanda bioquímica de oxigênio, nichos ecológicos e outros termos próprios. Mas eu não daria a isto uma importância (ou uma dificuldade) exagerada. Todas as áreas da história tem vocabulários próprios e demandas próprias. História econômica, por exemplo, exige conhecimentos de regressões, e mais estatística do que eu jamais vou querer aprender. Como fazer estudos de gênero sem um bom entendimento de discussões de identidade e sociologia de gênero? Ou vamos pensar em história legal - todo aquela linguagem de “legalês” e as contradições entre o direito romano e suas interpretações posteriores. Estas pontes que a história constrói com outras disciplinas são parte mesmo do que a gente entendo por história, seja história ambiental ou outros ramos com maior tradição na historiografia.

CAFÉ HISTÓRIA: Professora, a senhora diz que a história ambiental é, por definição, interdisciplinar. Ela resulta do trabalho tanto de historiadores como de geógrafos, demógrafos, biólogos, engenheiros florestais, climatólogos e antropólogos, dentre outros tantos estudiosos das relações entre natureza e sociedade. Mas como essas parcerias são construídas na prática? Quais são os canais de comunicação e interação que conectam esses pesquisadores? E mais: qual o desafio de abordagem metodológica para o historiador numa área construída a tantas mãos?

LISE SEDREZ: Estas parcerias são construías como tantas outras na comunidade acadêmica: contatos, pareceres, estudos. Os trabalhos não tem necessariamente que ser construídos com várias mãos, mas a área sim. Warren Dean uma vez disse que, quando escrevia seu monumental The Struggle for Rubber, uma história da exploração de borracha na Amazônia, e mesmo mais tarde seu magistral A Ferro e Fogo, uma história de 500 anos da Mata Atlântica, ele passou anos importunando seus amigos e colegas biólogos e cientistas, pedindo referências, recuperando fontes, solicitando esclarecimentos. As instituições profissionais de história ambiental, como a ASEH, a ESEH e a SOLCHA, também encorajam muito a participação de não historiadores em suas pesquisas, o que admito que às vezes é complicado. Temos às vezes biólogos extremamente entusiasmados porque acharam uma série histórica, como a da exploração de pérolas no mar da Baja California (Mar de Cortez), por exemplo. Este é um caso específico em que a colaboração de biólogos e historiadores foi muito proveitosa. MIcheline Cariño, que é a atual presidente da SOLCHA, estava em contato com estes biólogos, e foi um trabalho enorme reformular a pesquisa para mais do que “fatos históricos curiosos”, em direção a um diálogo com a historiografia sobre a ocupação econômica, social e étnica daquele espaço, sobre como os ciclos ecológicos das pérolas num ambiente vulnerável como a Baja California aguçava as disputas por poder, se inseria em instituições tradicionais no México como a peonage, etc. Acho que a resposta aqui é que não há uma resposta padrão. Esta comunidade de historiadores ambientais e outros cientistas com interesse na história buscam estabelecer estes contatos na medida que seus objetos de pesquisa o exigem, e os desafios são enfrentados na media que aparecem.

CAFÉ HISTÓRIA: O aquecimento global é atualmente um dos temas mais quentes (com o perdão do trocadilho) e populares no plano da discussão ambiental. Além de ocupar um espaço importante na imprensa nacional e internacional, o tema é pauta sempre presente nos encontros de líderes mundiais, tornou-se objeto de um número cada vez maior artigos científicos e razão de protesto das mais importantes organizações mundiais. Prova dessa popularidade é o sucesso do documentário do político norte-americano Al Gore, “Uma Verdade Inconveniente” (2006), premiado como Oscar de melhor documentário. O filme, aliás, expos um verdadeiro racha: de um lado estão cientistas que acreditam que o aquecimento global decorre da interferência humana; de outro, estão os mais céticos, chamados pejorativamente de “negacionistas”, que defendem que o aquecimento global é algo inerente ao nosso planeta. Como os historiadores veem se posicionando nesta arena de disputas? E a senhora, como enxerga esta questão?

LISE SEDREZ: Bom, do ponto de vista científico, esta divisão em dois lados é uma falsa questão. É como colocar de um lado “evolucionistas” e do outro “criacionistas”. Na pesquisa científica, não são “lados equivalentes”- embora para o historiador do fim do século XX, início do século XXI, estas sejam disputas fascinantes. Há muitos historiadores que desenvolvem pesquisas climáticas - citei Ladurie, desde 1971, mas há muitos outros, como Nancy Langston e Tom Griffiths. Mas um dos livros mais interessantes que li sobre esta questão é o Merchants of Doubt, de Erik Conway e Naomi Oreskes. Eles trabalham de fato com história da ciência, mas Erik já há vários anos lida com esta fronteira entre história da ciência e história ambiental. No livro, publicado ano passado, fácil de ler, dá para baixar no Kindle, eles mostram como estas “falsas polêmicas” científicas tem uma história e estabelecem uma sólida conexão entre os cientistas que hoje dizem que “não há certeza sobre a origem antropogênica da mudança climática” e os que diziam que “não há certeza sobre um elo causal entre fumo e câncer.” E quando digo sólida conexão quero dizer sólida mesmo, com os mesmos cientistas, os mesmos institutos, se posicionando consistentemente contra uma esmagadora maioria de estudos, a fim de obstruir a tomada de políticas públicas, sejam elas de campanhas contra fumo ou assinaturas de tratados internacionais para controle de emissões de gases que causam efeito estufa. Meu ponto (e o deles) é mostrar que esta falsa polêmica tem menos a ver com uma história do clima e mais a ver com as relações de poder que se estabelecem entre a comunidade científica e a esfera pública. O que não a torna menos fascinante, ao contrário.

CAFÉ HISTÓRIA: Professora, a senhora faz parte hoje do quadro docente do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Que atividades no campo da história ambiental estão sendo desenvolvidas nesta universidade? Que pesquisas destacaria? Há muitos alunos de graduação ou de pós-graduação trabalhando na área?

LISE SEDREZ: A possibilidade de trabalhar com história ambiental foi um dos pontos que mais me atraiu para a UFRJ. O prof. José Augusto Pádua, professor da casa há vários anos, estabeleceu um núcleo de estudos ambientais que estamos ampliando. O núcleo consiste de professores, alunos de graduação e pós-graduação, de várias universidades do Rio de Janeiro, que se reúnem todas as quintas feiras, das 14H às 16H, para leituras, debates, discussões. Em 2012, este espaço terá o prof. Angus Wright, emérito da California State University em Sacramento, ministrando um minicurso sobre história agrária e ecologia, uma discussão sobre internacionalismo, pesticidas, copyrights, modelos agrícolas, interessantíssimo. Estamos sempre atentos para formas de diversificar este espaço, promover atividades, estimular mais pesquisas. É isto está dando frutos. Este ano mesmo tivemos vários candidatos nas seleções de mestrado e doutorado que queriam trabalhar com história ambiental. Há desde pesquisas mais tradicionais na historiografia brasileira (como pesquisas sobre viajantes e naturalistas do século XIX) até tentativas mais ousadas, como pesquisas sobre as chuvas no Rio de Janeiro e Buenos Aires, um estudo de história ambiental urbana.

CAFÉ HISTÓRIA:A senhora estudou e trabalhou durante vários anos nos Estados Unidos. Pode contar um pouco mais sobre este período? A história ambiental feita lá difere muito da história ambiental feita aqui no Brasil?

LISE SEDREZ: Como mencionei antes, fiz meu mestrado e doutorado em história ambiental, primeiro na New Jersey Institute of Technology e depois na Stanford University. Depois disto, dei aula no College of William and Mary, em Williamsburg, Virginia, um dos mais antigos estabelecimentos de ensino superior nos EUA, e finalmente na California State University em Long Beach, onde fiquei até ano passado. Foi um grande período de aprendizado, de descobertas, e de muitas viagens. Basta dizer que atravessei os EUA de carro umas três vezes, levando de 15 a 24 dias cada vez (tem louco que faz isto em cinco dias). Eu me apaixonei pelo país, pelas paisagens duras ou emocionantes, inóspitas ou acolhedoras, pelas pessoas, e mesmo pelas loucuras da vida americana. O que não significa não ser crítica - como o são tantos que moram lá, latinos como eu ou não. A história ambiental tanto nos EUA como na América Latina tem mudado muito nos últimos anos, até pelo contato e amadurecimento da disciplina. Vinte anos atrás, a história ambiental norte americana costumava ser mais provinciana, no sentido de muito voltada para o “próprio umbigo”, para uma certa narrativa excepcionalista que caracteriza os EUA. E isto mudou. Há mais busca do contraste, da comparação, da similaridade, do outro. Há uma procura para entender como experiências nos EUA podem ser diversas ou similares às experiências na África, na Ásia, na Europa, na América do Sul. E isto é visível, por exemplo, nos títulos e temas dos trabalhos apresentados nos encontros da ASEH. No Brasil, por outro lado, o que a gente chama de história ambiental “nasce” a partir de vários caminhos: geografia histórica, política, história econômica. Isto desde, por exemplo, Euclides da Cunha em Os Sertões, ou Gilberto Freyre em Nordeste. O desafio é diferente. É buscar a partir destes caminhos estabelecer um quadro teórico, ou melhor, um espectro de quadros teóricos, e uma agenda metodológica que ofereça à história ambiental um lugar claro e visível na historiografia brasileira. Nisto acho que a experiência da história ambiental norte-americana pode ajudar.

CAFÉ HISTÓRIA: Professora, a senhora diz que há um esforço de incorporar o debate de história ambiental nas cadeiras obrigatórias nas faculdades de história, evitando a formação de “guetos disciplinares”. Na sua opinião, este esforço já tem resultados positivos? Como isso pode ser feito? Será que essa discussão tem fôlego para chegar ao currículo das escolas?

LISE SEDREZ: Esta última pergunta é difícil, mas eu já tenho alunos de graduação fazendo seus trabalhos de fim de curso neste tópico. Alguns dos meus alunos, por exemplo, analisaram livros didáticos de segundo grau e tentaram entender se e como a história ambiental entrava nas escolas. O resultado foi com altos e baixos. Alguns livros parecem estar incorporando questões da história ambiental, mas, na maior parte das vezes, é só naquele quadrinho explicativo - nisto, não estamos tão diferentes de outras sub-disciplinas, como história de gênero. Depois de uma narrativa bem tradicional, os autores, como se só então lhes tivesse ocorrido, acrescentam um quadrinho dizendo “A propósito, também houve desmatamento neste período” ou “A propósito, também havia mulheres por ali”. Mas alguma coisa já chega lá. Muitas escolas também estão introduzindo educação ambiental no currículo regular, e isto pode incluir alguma discussão de história ambiental. Mas raramente os professores de história se envolvem nesta matéria. Fica mais a cargo dos professores de ciência.

Pessoalmente, acho que o único jeito de história ambiental se desenvolver, e não só no Brasil, é realmente evitando a guetização. Por exemplo, quando ensino história das Américas, a inserção da América Latina no contexto internacional do fim do século XIX passa necessariamente pelo que chamamos de “segunda conquista da América”, uma mudança radical de paisagens e de uso da terra que é um tema clássico da história ambiental. da mesma forma, a conquista do Oeste na história norte americana precisa entender a ocupação das terras indígenas, a destruição do búfalo, a construção das grandes ferrovias e seus custos ambientais - e isto é importante não só para o historiador ambiental, mas para qualquer profissional interessado em história dos EUA no século XiX. Dá trabalho? Dá. Mas também dá frutos, e permite ao estudante, ao futuro historiador abordar as complexidades e as promessas do estudo de história.

CAFÉ HISTÓRIA: Professora Lise, muito obrigado pela entrevista. Tenho certeza que os leitores do Café História possuem grande interesse no que foi dito aqui. Para finalizar, a senhora poderia indicar algumas referencias bibliográficas ou artigos de história ambiental para aqueles que querem se aprofundar no campo?

LISE SEDREZ: O prazer foi todo meu, Bruno.
Bom, esta pergunta me dá uma oportunidade de vender meu peixe. Nos últimos dez anos, tenho mantido uma bibliografia online de história ambiental da América Latina, que pode ser vista em http://www.csulb.edu/laeh de fato, com o apoio da FAPERJ, estou em processo de transferí-la para a UFRJ, adaptando-a ao público latino-americano (por enquanto ela está basicamente em inglês). Ali há mais de mil referências de história ambiental latino-americana, num banco de dados que pode ser pesquisado por autor, tema, palavra chave, título... Mas, para dar uma resposta mais direta, os três textos em português que eu indicaria, para uma introdução à história ambiental, são:

DUARTE, Regina Horta. Por um pensamento ambiental histórico: o caso do Brasil. Luso-Brazilian Review, v.41, n.2, p.144-62, 2005.

PADUA, José Augusto. As bases teóricas da história ambiental. Estud. av., São Paulo, v. 24, n. 68, 2010.

WORSTER, Donald. Para fazer história ambiental. Estudos Históricos, v.4, n.8, p.198-215, 1991.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Entrevista com o Professor José Augusto Drummond sobre História Ambiental

O entrevistado da 6ª Edição da Revista História é José Augusto Leitão Drummond. Em entrevista instigante, Drummond, referência e pioneiro nos estudos de História Ambiental no Brasil, aborda problemáticas e perspectivas dessa corrente na passagem do século XX para o XXI.

Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, fez Mestrado em Environmental Science na The Evergreen State College (EUA) e Doutorado em Land Resources na University of Wisconsin(EUA). Atualmente é Coordenador de Pós-Graduação do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília.

Entre os temas de interesse destacam-se: políticas públicas e dos recursos naturais; desenvolvimento sustentável; usos e conflitos em torno dos recursos naturais; políticas ambientais; Amazônia; unidades de conservação; história ambiental.

"O Amapá nos tempos do Manganês - um estudo sobre o desenvolvimento de um estado amazônico (1943-2000)", "Amazônia dinamismo econômico e Conservação ambiental" e "Devastação e Preservação Ambiental no Rio de Janeiro" estão entre algumas de suas principais publicações, além do importante artigo História Ambiental: Temas, Fontes e Linhas de Pesquisa

História Agora - Professor, o senhor é reconhecido como um dos pioneiros dos estudos em História Ambiental no Brasil. Qual foi o seu percurso e como entrou em contato com essa nova área?

Drummond - Em 1986-1988, fiz um curso de mestrado em Environmental Science num pequeno “college” (The Evergreen State College), no estado de Washington, EUA. Eu tinha mais de dez anos de formado (em ciências sociais) e já dava aula em universidade há oito anos. Estava em busca de uma renovação temática. O meu orientador foi Thomas B. Rainey, um historiador que, aos 50 e tantos anos de idade, estava transitando da história política para a história ambiental (área ainda nova nos EUA, naquele momento) e trouxe os seus aprendizados e leituras recentes para a sala de aula e para a nossa interação. O conteúdo geral do curso estava longe de ser de história, e muito menos de história ambiental, mas, como ele era o coordenador do curso e oferecia diversas disciplinas, imprimiu uma marca “histórica” ao curso. De minha parte, eu nunca ouvira falar da história ambiental. Apesar de não ter graduação em história, o meu “viés histórico” pessoal me preparou para tirar vantagem desse componente que o meu orientador promovia com tanta competência no curso.

Uma disciplina específica que cursei teve forte efeito. A pedido de alguns alunos, inclusive eu, Rainey ofereceu um seminário especial sobre história ambiental, no verão de 1987, como disciplina optativa. Esse foi o meu “mergulho súbito e profundo” na história ambiental, embora tivesse lido alguns autores relevantes nos semestres anteriores. Em algumas poucas semanas li e debati numerosos autores contemporâneos de HA, como Alfred Crosby (Ecological Imperialism), Donald Worster (Dust Bowl), Warren Dean (Brazil and the Struggle for Rubber), Richard White (Land Use, Environment and Social Change), Roderick Nash (Wilderness and the American Mind), Frederick Turner (Beyond Geography), Stephen Pyne (Fire in America), Joseph Petulla (American Environmental History), William Cronon (Changes in the Land), Michael Smith (Americans and their Forests), além de alguns clássicos, como Frederick Jackson Turner (vários textos curtos) e Walter Prescott Webb (The Great Frontier). Quase tudo que li desde então e que cabe no escaninho da HA é escrito por esses autores, por autores que eles citam ou por autores associados a eles.

Das leituras desses livros (todos muito bons e alguns excelentes) e dos debates em torno deles escrevi um paper para a disciplina, sobre o replantio da Floresta da Tijuca, paper este que acabou se tornando a pedra fundamental da dissertação que escrevi no ano seguinte (sobre os parques nacionais do Rio de Janeiro). O capítulo da tese sobre a Tijuca virou a base de um artigo que publiquei em 1988 em Estudos Históricos. As anotações de leitura feitas na mesma disciplina ajudaram na composição de um artigo “historiográfico” publicado em 1991, na mesma revista. A disciplina com Rainey foi, portanto, prolífica, gerando dissertação e dois artigos e abrindo todo um novo campo de interesse para mim. Esses artigos de Estudos Históricos dão a alguns a idéia incorreta de que um não-historiador como eu possa ser um “pioneiro” da história ambiental no Brasil.

HA - Qual foi a recepção do ambiente acadêmico brasileiro no final da década de 80 para essa abordagem da história?

Eu não sou a pessoa certa para responder essa pergunta, pois no meu retorno ao Brasil, depois do mestrado, continuei o meu trabalho no Departamento de Ciência Política, na UFF. Não fiz grande esforço em prol da história ambiental e mesmo a minha formação “ambiental” mais ampla no curso de mestrado ficou um tanto subutilizada, já que havia outras demandas a serem atendidas. Continuei lendo, por conta própria, autores de história ambiental de língua inglesa e apliquei a “lente” da história ambiental a leituras antigas e novas sobre o Brasil (Freyre, Prado Jr., Oliveira Vianna, Alberto Torres, Darcy Ribeiro, Holanda, Josué de Castro, as narrativas de viajantes etc.), mas isso não se traduziu em muitas aulas ou em quaisquer novos escritos. Traduzi o livro citado de Frederick Turner (traduzido como O Espírito Ocidental contra a Natureza), publiquei uma resenha sobre o livro de Dean sobre a borracha, organizei um dossiê de meio ambiente e história para Estudos Históricos, sugeri a algumas editoras a tradução de alguns livros mencionados acima. Pouco mais fiz do que isso pela “causa” da história ambiental nos anos imediatamente depois de 1988.

A minha “roda” pessoal de acadêmicos brasileiros interessados em questões ambientais só incluía um historiador, José Augusto Pádua, com quem tive um intercâmbio muito rico. No entanto, no princípio e nos meados da década de 1990, ele não tinha uma produção sistemática sobre história ambiental. Embora investisse muito em leituras sobre o assunto, ele passou um bom período fora do circuito acadêmico, até concluir a sua tese de doutorado, que se transformou no excelente livro Um Sopro de Destruição. Os demais integrantes da minha mencionada “roda” eram sociólogos, economistas, antropólogos, cientistas políticos, geógrafos, planejadores, muito mais interessados em questões contemporâneas ou atuais, nas quais a aplicação do viés da história ambiental era muito rara.

Ao escolher o meu curso de doutorado, que iniciei em 1991, “fugi” um tanto da história ambiental, pois ingressei em um curso sobre recursos naturais e desenvolvimento, na University of Wisconsin. Apesar de ter feito uma disciplina de geografia histórica com William Denevan e de ter assistido várias palestras de William Cronon, fiz uma tese muito mais parecida com a sociologia do desenvolvimento, com forte viés “contemporâneo”. Estudei um empreendimento minerador no estado do Amapá que começou na década de 1940 e mal chegou a completar cinco décadas de funcionamento. Embora muito mais “durável” do que a grande maioria dos empreendimentos produtivos da Amazônia, é um objeto de “vida curta”. Ainda assim, tentei incorporar na tese alguns insights extraídos da história ambiental.

Por que “fugi” da história ambiental? Talvez tenha sido para “reaquecer” a minha formação original de cientista social interessado em políticas de desenvolvimento. De outro lado, se a “recepção” da história ambiental nos meus circuitos pessoais e profissionais mais próximos tivesse sido mais ampla logo depois de 1988, talvez eu tivesse optado por fazer um doutorado em história ambiental – e tive oportunidade para tanto. Para melhor ou para pior, continuei a ter um pé e meio fora da área acadêmica de história.

Essa pergunta sobre a recepção da história ambiental no Brasil poderia ser respondida com mais proveito, portanto, em entrevistas com José Augusto Pádua, Regina Horta Duarte, Gilmar Arruda, Arthur Soffiatti e Lise Sedrez, entre outros, historiadores que escreveram teses e/ou dissertações de história ambiental e que estão produzindo no campo. Christian Braanstrom e Shawn Miller, norte-americanos, estudam diligentemente a HA do Brasil e poderiam também dar depoimentos interessantes.

HA - Conte-nos um pouco da formação do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UNB? Há um lugar para a História Ambiental nessa proposta? Quais são suas atuais pesquisas?

O CDS foi criado em 1995 por um grupo de professores da UnB interessados em investir nas questões situadas na interface do social com o natural. A adoção do ‘desenvolvimento sustentável’ como ‘tema definidor’ do centro resultou de um consenso entre eles, assim como a área de concentração principal (política e gestão ambiental). Não participei do grupo fundador e acho que nenhum historiador da UnB fez parte dele. Muito mais tarde, quando fui convidado a ‘aderir’ ao CDS, foi muito mais pelas temáticas citadas no meu Lattes do que pelos meus investimentos na história ambiental. Como disse antes, tenho vários interesses (principalmente unidades de conservação e empreendimentos produtivos de recursos naturais) que distintos da história ambiental e foi com eles que criei o meu nicho no CDS, a partir de 2001, quando iniciei uma fase de quase três anos como pesquisador associado. Mais recentemente, com apoio de um pós-doutorando que é historiador, tenho conseguido imprimir um conteúdo parcial de HA às minhas aulas, orientações e publicações. No entanto, o peso específico disso entre professores e alunos e dentro da produção do CDS é ainda bem reduzido.

HA - Professor no artigo “A História Ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa” o senhor afirma que: “Mas a minha ambição maior é convencer alguns historiadores e outros cientistas sociais a incorporar variáveis ambientais aos seus estudos sobre a sociedade humana.”, passados quase vinte anos o senhor acredita que essas variáveis ambientais foram incorporadas pela historiografia e pela produção das ciências sociais?

Não, ou quase nada. Ainda é um tabu para os cientistas sociais admitir que as sociedades humanas possam ser condicionadas, conformadas, direcionadas ou determinadas por qualquer força da natureza. Ainda recebo reações azedas e mesmo irônicas a essa sentença transcrita na pergunta, escrita há quase 20 anos. As reações mais fortes vêm daqueles convencidos sobre a “imunidade humana” à natureza – para eles, os humanos ficam fora e acima da natureza. Estes são “humanistas” extremos, no sentido de privilegiar uma espécie animal tão recente tão recente como a dos humanos e colocá-la acima de todo e qualquer fator natural, num planeta de 4,5 bilhões de idade e num processo evolutivo de muitas centenas de milhões de anos. Num aparente paradoxo, no entanto, recolho reações de espanto e censura também entre aqueles que, um tanto pos-modernamente, propõem que a cultura humana está totalmente “dentro da natureza” e que, assim, acreditam que tudo que os humanos fazemos é natural. Para eles, isso tira o sentido da minha proposição de que variáveis naturais devem ser levadas em conta no estudo das sociedades humanas. Para esses críticos, religião, sistemas de parentesco, escrita e arte são coisas tão naturais quanto pedras, água, plantas e bichos, não se colocando, portanto, a distinção implícita na minha proposição. Há ainda os criacionistas, para quem natureza e cultura são criações divinas que não podem nem devem ser estudados nas suas influências mútuas, pois isso negaria o papel e os propósitos do criador. Francamente, mesmo discordando frontalmente dessa terceira posição, acho que ela é muito mais coerente do que as outras duas... Ou seja, essa é uma questão espinhosa sobre a qual as polêmicas nunca cessarão.

HA - Nesse sentido, e ainda remetendo ao seu artigo, a proposta da História Ambiental não seria apenas o estudo de um aspecto da vida humana, que seria a relação entre o homem e a natureza. Em nosso entender, a História Ambiental propõe que o percurso de uma sociedade no tempo não pode ser dissociado do ambiente que a cerca e, dessa forma, toda história deve ser não apenas social, como também ambiental. Estamos corretos?

Sim, é isso que sustento, embora não defenda um fundamentalismo para a HA. Há vários aspectos da aventura humana que podem ser tratados sem rígidas ”ancoragens” ambientais.

HA - Como o senhor vê a História Ambiental hoje no Brasil? É um campo consolidado?

Em maio de 2008 ocorreu em Belo Horizonte o primeiro grande encontro acadêmico de história ambiental no Brasil, organizado por Regina Horta Duarte, da UFMG, uma das lideres da disciplina no Brasil. Não sei a contagem exata, mas houve várias dezenas de papers e umas 150 pessoas presentes, embora se deva levar em conta que o evento reuniu historiadores ambientais da América Latina e do Caribe. Tive a grata satisfação de perceber durante o evento uma certa “ebulição” sobre o assunto, já que ele atraiu profissionais com investimentos antigos, alguns “visitantes” eventuais (como eu) e numerosos jovens estudantes de pós-graduação e graduação que se dedicam integralmente à HA.

Fiz a palestra de abertura do evento, tentando colocar o dedo no pulso do “estado da arte” da história ambiental no Brasil. Tive o cuidado de não ler a programação do evento antes de preparar a palestra, para não influenciar as minhas escolhas de quem seria mencionado, mas constatei que quase todos os autores brasileiros contemporâneos que mencionei estavam na platéia, alem de alguns estrangeiros. No entanto, havia também profissionais de quem eu nunca ouvira falar. Ou seja, embora talvez ainda não consolidado, o campo da história ambiental está certamente em crescimento.

HA - Em relação às fontes e métodos, o historiador ambiental trabalha com fontes tradicionais, mas também vai a campo, trabalho pouco afeito aos historiadores convencionais. Que instrumentais teóricos o historiador deve levar consigo e o que ele deve procurar no campo que interesse à História Ambiental?

Repito o que escrevi naquele artigo de 1991 – o instrumento “teórico” principal que o historiador ambiental leva ao campo é a capacidade de ler as marcas da ação humana na paisagem. No entanto, principalmente quando se trata de paisagens não-urbanas, isso não é algo que se aprenda a fazer no campo da história ou das ciências humanas ou que se documente com cartas, mapas e decretos. Aprende-se a fazer essa leitura com um conjunto de ciências naturais e da vida – geologia, biologia, ecologia, geografia física etc. Em alguns casos, a arqueologia também ajuda. Atividades humanas – extração de plantas, agricultura, caça, retirada de madeira, represamento de rios, mineração, disposição de resíduos etc. – deixam marcas por vezes bastante óbvias e duráveis nas paisagens, mas a sua visibilidade não é necessariamente fácil para cientistas humanos, que por isso precisam se preparar para tanto.

A tarefa fica mais fácil quando existe documentação – linguística, escrita, arqueológica, oral-mitológica e até genética – que informe sobre as atividades humanas independentemente de as marcas na paisagem existirem ou serem visíveis. Se sabemos, por exemplo, que uma ferrovia foi construída numa determinada data, num determinado lugar, podemos supor, com alto grau de segurança, que ocorreu uma série de efeitos sobre as paisagens – desmatamento, construção de estradas vicinais, pontes e túneis, incêndios, uso de lenha como combustível, além da retirada de cargas locais (minérios, madeira) e da entrada de outras cargas (materiais de construção, alimentos, utensílios, ferramentas etc.). Talvez um cronista ou um jornal local e o memorial da obra confirmem uma ou mais dessas hipóteses. Os manifestos de cargas da ferrovia – se existentes - podem ajudar a confirmar ou negar o intercâmbio de bens. Em um ambiente urbano, o aterro de um manguezal para construção de bairros e portos pode ter deixado poucas marcas “naturais”, mas documentos de planejamento governamental e jornais podem ajudar a confirmar a alteração na paisagem. Um trecho de rio urbano retificado e canalizado teve um dia um leito sinuoso agora desaparecido, mas que talvez tenha ficado registrado nos em pinturas dos artistas ou fotografias. Assim, o historiador ambiental que vai ao campo ainda deve continuar atento aos documentos capazes de confirmar e até enriquecer o que consiga deduzir das marcas físicas nas paisagens.

Como disse em outro texto, é útil também para a HA um conhecimento seguro das floras nativas, com base na biologia e na ecologia. Não foi por acaso que Warren Dean cursou um mestrado em botânica tropical antes de se aprofundar na sua pesquisa sobre a destruição da Mata Atlântica. O conhecimento da flora nativa permite ler melhor as marcas humanas na paisagem, pois que os humanos tipicamente interferem direta e vigorosamente nela e alteram os seus aspectos naturais – densidade de biomassa, composição de espécies, fisionomia, extensão – e a fauna que vive nelas. Poucos ecossistemas terrestres ou aquáticos ficaram imunes a influências humanas. A ação humana é quase onipresente. Ainda assim, ela só pode ser adequadamente medida se praticarmos uma “supressão metodológica” dos humanos, perguntando: para onde iria a flora nativa sem a interferência humana? Só assim teremos parâmetros para avaliar o “peso” e o papel reais dos humanos na conformação e na mudança das floras regionais. Isso porque a criatura humana fez uma aparição recentíssima, se considerarmos a enorme duração dos processos geológicos e biológicos que moldaram a biosfera.

Outra consideração “teórica” relevante vem das mesmas ciências mencionadas – o abandono do chavão do “equilíbrio ecológico” (tão caro a muitos ambientalistas bem intencionados). O chamado “equilíbrio ecológico” tem muito pouco de equilíbrio, pois geosfera, biosfera e atmosfera têm sofrido transformações moderadas e radicais, há eons, independente de artefatos humanos como a agricultura de queimada ou a bomba atômica - rachaduras, deslocamentos e colisões dos continentes, colisões com asteróides, eras glaciais, subidas e descidas dos níveis de temperatura e dos oceanos, mudanças na composição da atmosfera, o próprio surgimento da vida e de diferentes formas de vida e as numerosíssimas extinções de espécies. Assim, na história do planeta ocorrem tanto a continuidade quanto a mudança, independente da cultura humana, e muitas dessas mudanças foram radicais.

Por isso, os historiadores ambientais não devem exagerar a capacidade humana de alterar a natureza, embora o Homo sapiens seja um animal dotado de uma capacidade singular de produzir alterações e seja suscetível aos efeitos de sua própria capacidade modificadora. Temos, como espécie, por exemplo, um apego aos ecossistemas em desequilíbrio, apego refletido na nossa agricultura (mesma nas suas formais mais “simples”) e na seleção dos nossos principais animais domésticos (cavalos, bois, ovelhas, cabras, burros, jumentos, lhamas, camelos, búfalos, renas), que são basicamente herbívoros que comem capins, gramas e ervas de pradarias, campos e savanas. A cultura humana é, pois, aliada histórica dos ecossistemas de flora aberta ou de ecossistemas artificialmente mantidos em desequilíbrio, e a prova cabal disso está no seu portfolio de plantas e animais prediletos e nas paisagens majoritariamente abertas e homogêneas que ela produz.

HA - Do ponto de vista metodológico e teórico, A disciplina História Ambiental pode ser estendida até o tempo presente?

Assim como existe uma história política, ou econômica, ou social contemporânea, não vejo porque a história ambiental não possa ser contemporânea também. Uma dificuldade do “tempo curto” pode ser a impossibilidade de atribuir certas mudanças ambientais e sociais a causas específicas, mas isso parece ser comum a outras histórias contemporâneas. O importante é levar em conta que certas mudanças na natureza obedecem a cronologias (tempo geológico, tempo biológico) pouco ou nada relacionadas com o tempo das culturas humanas. Tenho lido afirmações enunciadas com uma certeza – ou será desconhecimento? - que me choca quando esse cuidado com os tempos diferenciados não é adotado.

Um exemplo: está se tornando um lugar comum afirmar, sem qualquer evidência, que certas populações “tradicionais” são responsáveis pela “criação de espécies”, só porque elas moram num mesmo lugar há 50 ou 500 anos e lidam com uma parte ínfima de sua flora, e quase exclusivamente para fins utilitários. Os “tradicionais” aparecem assim gigantescos, substituindo o processo evolutivo. O fato é que os humanos pouco podem fazer nesse campo da “criação” de espécies. As suas opções são: (1) extinguir espécies criadas pelo processo evolutivo, (2) redistribuir/transportar espécies de um lugar para outro (‘reembaralhando’ as formas de vida criadas pelo mesmo processo evolutivo) e (3) “deixar em paz” as espécies existente nos locais onde moram. Se forem agrícolas e pecuários, talvez consigam chegar a uma quarta possibilidade - desenvolver variedades de uma parcela ínfima das espécies criadas pelo processo evolutivo, ou seja, das espécies domesticadas de interesse estrito para a própria humanidade. No entanto, “criar” de fato uma espécie (1) exige um tempo que não é medido nem em anos, nem em décadas, nem em séculos, nem em milênios (escala máxima de tempo que seja significativa para a cultura humana registrada) e (2) requer o controle sobre processos que nem de longe estão ao alcance de qualquer cultura humana. Talvez as modernas empresas de biotecnologia sejam exceção, pois que aprenderam a pisar no acelerador para aumentar a velocidade das lerdas mudanças genéticas, de forma a aproximá-las das ágeis demandas culturais. Os resultados desse ajuste são os OGMs, que se parecem mais com novas espécies do que qualquer outra coisa de que eu conheça. Porém, essas empresas nada têm de tradicionais...

HA - O senhor mencionou em seu supracitado artigo, que a História Ambiental surge também como uma demanda da sociedade que então adquiria uma consciência ecológica. O senhor avalia que a produção da História Ambiental já atende essa demanda? Quais foram os frutos políticos e sociais que a História Ambiental no Brasil colheu?

Quando escrevi isso, eu estava empolgado com a rapidez com que crescia a preocupação com o meio ambiente em vários setores da sociedade e do governo brasileiros. Bastaram alguns poucos anos a mais, porém, para mostrar que a questão ambiental passava naquele momento por um crescimento exponencial que acabou se suavizando, já que outras questões mobilizaram a atenção e a energia dos cidadãos – inflação, desemprego, criminalidade, educação, dívida externa, saúde, eleições regulares etc. Acabou ocorrendo o que é normal em sociedades complexas como a brasileira – uma questão que parece destinada a ser de preocupação geral se torna uma questão “setorial”.

No entanto, é preciso reconhecer que o “setor” que no Brasil se preocupa com o ambiente é grande, visível, diversificado e até bem articulado. Não obstante, ele perdeu a capacidade de “empolgar” as maiorias, de “monopolizar” agendas e de influenciar governos. Isso está mais claro do que nunca na coalizão que elegeu e sustenta Lula, a mais francamente “em-favor-do-desenvolvimento-a-qualquer-custo” desde a coalizão que deu apoio a Ernesto Geisel. A única coisa “sustentável” que interessa à coalizão lulista é sustentar altas taxas de crescimento do PIB. Note bem: essa coalizão tem apoio maciço do eleitorado brasileiro. Ela não “traiu” a causa ambientalista – muito pelo contrário, revelou o seu tamanho real, que infelizmente é muito menor do que eu gostaria que fosse. É demais esperar que a história ambiental ou que a produção de qualquer ramo da ciência tenha papel central na reversão desse quadro, mesmo a médio prazo. Da maneira que estão as coisas, a nossa enfraquecida “frente ampla” ambientalista terá que se empenhar para virar o jogo e retomar parte da força e da capacidade de influenciar que ela teve há cerca de 20 anos.

HA - Professor, falemos da Amazônia. Recentemente a Ministra Marina Silva pediu demissão do seu cargo no Ministério de Meio-Ambiente em função, dentre outras coisas, da expansão da fronteira agrícola na Floresta Amazônica. Há ainda a questão do desmatamento ilegal e do crescimento desordenado das cidades. Como o senhor vê a atuação do Estado Brasileiro para a resolução ou contenção desses problemas e conflitos? Na Amazônia, há ainda a questão indígena e o direito ao acesso à terra. O senhor pensa que as reservas indígenas podem contribuir para a preservação da floresta? Ou essas reservas trazem novos problemas, inclusive ambientais?

Marina Silva fez e continua a fazer parte da citada coalizão “desenvolvimento-a-qualquer-custo” que elegeu e que dá apoio a Lula. Ela era o elo mais “verde” – ou o único elo “verde” – dos ocupantes de cargos dessa coalizão. Ela sabia dessa sua excepcionalidade e resolveu enfrentar um jogo muito difícil. Isso é admirável, mas ela errou totalmente ao fazer do seu ministério um “ministério não-governamental”, que preferia conversar endogenamente consigo mesmo e dar as mãos às ONGs que a apoiavam do que dialogar com os ministérios de grande musculatura e que financiam ou apóiam as atividades mais fortemente impactantes do meio ambiente. Errou também ao subordinar a questão ambiental de forma fundamentalista à questão social, desprezando a importância da proteção da biodiversidade pelo seu valor intrínseco e condicionando-a à melhoria das condições de vida de certas parcelas da população rural brasileira. Ficou falando sozinha.

Essa digressão serve (1) para mostrar que o estado não tem tido posição monolítica na questão ambiental e (2) para sugerir que o viés escolhido por Marina Silva reduziu substancialmente na esfera política o peso específico nada desprezível que o conjunto dos ambientalistas tem na sociedade brasileira. A gestão Marina propiciou um retrocesso na política ambiental nacional que levará uma década para ser recuperada, pois trivializou a questão ambiental (igualando-a à questão social), assumindo um tom outsider de fórum social mundial encravado na administração Lula, ao invés de superar a adolescência política e pisar com firmeza na arena propriamente governamental. É quase trágico que isso tenha sido conseguido ao custo do desgaste profundo, se não da liquidação, de um ícone do movimento ambientalista – mulher, amazônida, pobre, não-branca, forjada nas lutas sociais contra o desmatamento na Amazônia.

Pensando em escala temporal mais ampla, a Amazônia tem vivido uma oscilação pendular no imaginário nacional dos últimos 100 anos da nossa história, aproximadamente – décadas de esquecimento (menos pelos próprios amazônidas, é claro) são seguidas por alguns anos de preocupação exacerbada. Desde que a erosão da biodiversidade se tornou uma questão premente na opinião pública de alguns países desenvolvidos, em meados dos anos 1980, o Brasil, grande detentor de biodiversidade, e a sua parcela amazônica, em particular, viraram foco de atenção internacional. Essa “pressão internacional” colocou de novo, e desta vez mais duradouramente, a Amazônia como questão premente para os brasileiros em geral. Desde o início desse ciclo e até hoje houve brasileiros que passaram a se preocupar com a Amazônia no sentido de moderar o uso dos seus recursos para fins produtivos, preservar trechos dela, aproveitar oportunidades de usar a floresta sem destruição (por exemplo, com turismo, pesquisa científica, bioprospecção, aproveitamento sustentável da biodiversidade etc.). Mas houve também correntes que, aparentando levar em conta o apelo internacional e nacional de uma Amazônia ‘preservada’, sempre colocaram o imperativo de que, mesmo com preservação e com uso moderado dos seus recursos, a região é destinada a nada menos do que alavancar o país para a condição de grande potência desenvolvida, com base na exploração intensiva dos seus recursos naturais. É esse segundo grupo – que, aliás, tem integrantes fortes na própria Amazônia - que prevaleceu na coalizão pró-Lula e nos seus governos.

Tento explicar melhor a importância do ponto que levantei antes - o da subordinação do ambiental ao social. Todos os indicadores sociais da população brasileira vêm melhorando desde 1995. Alem disso, a aposta da coalizão no poder no “espetáculo de crescimento” a altos percentuais se concretizou (embora menos espetacularmente do que o desejado...). Os demais ministérios se valeram dessa oportunidade para provar que era possível e até desejável ignorar as “restrições” ambientais e manter o MMA no congelador, sob pressão cerrada da Casa Civil para liberar licenças ambientais. Para que “frear” o tão desejado crescimento com restrições ambientais, se ele está gerando benefícios generalizados para a população? - perguntam ruralistas e aliados. Aliás, o próprio ressurgimento dessa posição retrógrada e equivocada – cuidar do meio ambiente atrasa o crescimento – e a sua prevalência neste momento são produtos diretos da era Marina, que à sua moda também subordina a proteção do ambiente natural ao bem-estar da sociedade. E assim se foi Marina e assim continuam a avançar desordenamente as frentes agrícolas e pecuárias na Amazônia...

As terras indígenas se baseiam em um preceito constitucional que considero uma grande conquista da sociedade brasileira. Se elas têm efeitos favoráveis à manutenção das floras amazônicas, essa é uma questão distinta. Mesmo que os indígenas “detonassem” o ambiente natural de suas reservas, estariam dentro do seu direito histórico de povos desapossados territorial, cultural e espiritualmente. Sou contra a alegação de que aqueles que tenham ou aparentem ter cuidado especial com a natureza mereçam direitos especiais. No entanto, os dados que conheço indicam que, sim, as terras indígenas têm contribuído para a preservação das florestas amazônicas, pelo menos no curto e médio prazos. Terras indígenas criadas mais recentemente em áreas de flora nativa em bom estado têm em geral mantido essa flora em melhor estado do que as terras nas suas vizinhanças.

Por último, tratarei brevemente da questão do acesso à terra na Amazônia. Eis aí um tema - acesso à terra - que deverá dar muito pano para muitas mangas dos nossos historiadores ambientais, quer estudem o passado ou o presente, quer estudem a Amazônia ou qualquer outra região do Brasil. A precariedade da documentação e da efetividade dos direitos de propriedade dos “pequenos” agricultores, aliada à grande abundância de terras pelo menos medianamente aptas para a agropecuária, fazem de pequenos e grandes agricultores brasileiros esbanjadores dos recursos – solos, águas, flora, fauna etc. -, cada um na sua escala. Daí a sucessão de fronteiras de expansão cuja ocupação caracteriza tão fortemente a história nacional. A Amazônia de hoje é apenas mais um capítulo dessa dinâmica de longa duração. Se esse sistema propicia esse esbanjamento, por outro ele tem ajudado a frear a velocidade de expansão das fronteiras agrícolas, já que ele tem vencido secularmente qualquer tendência à democratização do acesso à terra – e esse acesso democratizado, desejável do ponto de vista político, na ausência de outros fatores, apenas aceleraria a ocupação e a destruição das fronteiras do passado, do presente e do futuro. Esse caráter ambientalmente ambíguo do sistema agrário socialmente iníquo de grande propriedades terá que ser matéria de muitos estudos de história ambiental.


Fonte: História Agora

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Entrevista com Hobsbawm: ‘Crise ambiental é desafio central que enfrentamos no século XXI'


“Vivemos meio século de um crescimento exponencial da população global, e os impactos da tecnologia e do crescimento econômico no ambiente planetário estão colocando em risco o futuro da humanidade, assim como ela existe hoje. Este é o desafio central que enfrentamos no século 21. Vamos ter que abandonar a velha crença — imposta não apenas pelos capitalistas — em um futuro de crescimento econômico ilimitado na base da exaustão dos recursos do planeta”. A afirmação é do historiador Eric Hosbsbawm em entrevista exclusiva à jornalista Verena Glass e publicada na Revista Sem Terra, maio/junho 2009.

O planeta vive hoje uma crise que abalou as estruturas do capitalismo mundial, atinge indiscriminadamente atores em nada responsáveis pela sua eclosão, e que talvez seja um dos mais importantes “feitos” da moderna globalização. Na sua avaliação, quais foram os fatores e mecanismos que levaram a esta situação?

Nos últimos quarenta anos, a globalização, viabilizada pela extraordinária revolução nos transportes e, sobretudo, nas comunicações, esteve combinada com a hegemonia de políticas de Estado neoliberais, favorecendo um mercado global irrestrito para o capital em busca de lucros. No setor financeiro, isto ocorreu de forma absoluta, o que explica porque a crise do desenvolvimento capitalista ocorreu ali. Apesar do fato de que o capitalismo sempre — e por natureza — opera por meio de uma sucessão de expansões geradoras de crises, isto criou uma crise maior e potencialmente ameaçadora para o sistema, comparável à Grande Depressão que se seguiu a 1929, mesmo que seja cedo para avaliarmos todo o seu impacto. Um problema maior tem sido que a tendência de declínio das margens de lucro, típico do capitalismo, tem sido particularmente dramática porque os operadores financeiros, acostumados a enormes ganhos com investimentos especulativos em épocas de crescimento econômico, têm buscado mantê-los a níveis insustentáveis, atirando-se em investimentos inseguros e de alto risco, a exemplo dos financiamentos imobiliários “subprime” nos EUA. Uma enorme dívida, pelo menos quarenta vezes maior do que a sua base econômica atual foi assim criada, e o destino disso era mesmo o colapso.

Como resposta à crise econômica, governos e instituições financeiras estão concentrados em salvar os sistemas bancário e financeiro, opção que tem sido considerada uma tentativa de cura do próprio vetor causador do mal. No que deve resultar este movimento?


Um sistema de crédito operante é essencial para qualquer país desenvolvido, e a crise atual demonstra que isso não é possível se o sistema bancário deixa de funcionar. Nesse sentido, as medidas nacionais para restaurá-lo são necessárias. Mas o que é preciso também é uma reestruturação do Estado por exemplo, através das nacionalizações, a “desfinanceirização” do sistema e a restauração de uma relação realista entre ativos e passivos econômicos. Isso não pode ser feito simplesmente combinando vastos subsídios para os bancos com uma regulação futura mais restrita. De toda forma, a depressão econômica não pode ser resolvida apenas via restauração do crédito. São essenciais medidas concretas para gerar emprego e renda para a população, de quem depende, em última instância, a prosperidade da economia global.



Antes de se agudizar o caos econômico, o mundo começou a sofrer uma sucessão de abalos sociais e ambientais, como a falta global de alimentos, as mudanças climáticas, a crise energética, as crises humanitárias decorrentes das guerras, entre outros. Como você avalia estes fatores na perspectiva do paradigma civilizatório e de desenvolvimento do capitalismo moderno?



Vivemos meio século de um crescimento exponencial da população global, e os impactos da tecnologia e do crescimento econômico no ambiente planetário estão colocando em risco o futuro da humanidade, assim como ela existe hoje. Este é o desafio central que enfrentamos no século 21. Vamos ter que abandonar a velha crença — imposta não apenas pelos capitalistas — em um futuro de crescimento econômico ilimitado na base da exaustão dos recursos do planeta. Isto significa que a fórmula da organização econômica mundial não pode ser determinada pelo capitalismo de mercado que, repito, é um sistema impulsionado pelo crescimento ilimitado. Como esta transição ocorrerá ainda não está claro, mas se não ocorrer, haverá uma catástrofe.

O capitalismo tem adquirido, cada vez mais, uma força hegemônica na agricultura com o crescimento do agronegócio. Muitos defendem que a Reforma Agrária não cabe mais na agenda mundial. Como vê este debate e a luta pela terra de movimentos sociais como o MST e a Via Campesina?



A produção agrícola necessária para alimentar os seis bilhões de seres humanos do planeta pode ser fornecida por uma pequena fração da população mundial, se compararmos com o que era no passado. Isso levou tanto a um declínio dramático das populações rurais desde 1950, quanto a uma vasta migração do campo para as cidades. Também levou a um crescente domínio da agricultura por parte não tanto do grande agronegócio, mas principalmente de empreendimentos capitalistas que hoje controlam o mercado desta produção. Da mesma forma, têm aumentado os conflitos entre agricultores e iniciativas empresariais na disputa pela terra para propósitos não agrícolas (indústrias, mineração, especulação imobiliária, transporte etc.), bem como pela sua posse e pela exploração dos recursos naturais. A Reforma Agrária sem duvida não é mais tão importante para a política como foi há 40 anos, pelo menos Insustentável: crescimento econômico e da população colocam em risco o futuro da amizade na América Latina, mas claramente permanece uma questão central em muitos outros países. Na minha opinião, a crise atual reforça a importância da luta de movimentos como o MST, que é mais social do que econômica. Em tempos de vacas gordas é muito mais fácil ganhar a vida na cidade. Em tempos de depressão, a terra, a propriedade familiar e a comunidade garantem a segurança social e a solidariedade que o capitalismo neoliberal de mercado tão claramente nega aos migrantes rurais desempregados.

Na virada do século, um novo movimento global de resistência social tomou corpo através do que ficou conhecido como altermundialismo. Surgiu o Fórum Social Mundial, e grandes manifestações contra a guerra e instituições multilaterais, como a OMC, o G8 e a ALCA, na América Latina, ganharam as ruas. Na sua avaliação, o que resultou destes movimentos? E hoje, como vê estas iniciativas?

O movimento global de resistência altermundialista merece o crédito de duas grandes conquistas: na política, ressuscitou a rejeição sistemática e a crítica ao capitalismo que os velhos partidos de esquerda deixaram atrofiar. Também foi pioneiro na criação de um modo de ação política global sem precedentes, que superou fronteiras nacionais nas manifestações de Seattle e nas que se seguiram. Grosso modo, logrou formular e mobilizar uma poderosa opinião pública que seriamente pôs em cheque a ordem mundial neoliberal, mesmo antes da implosão econômica. Seu programa propositivo, porém, tem sido menos efetivo, em função, talvez, do grande número de componentes ideologicamente e emocionalmente diversos dos movimentos, unificados apenas em aspirações muito generalistas ou ações pontuais em ocasiões específicas.

Principalmente na América Latina, os anos 2000 trouxeram uma série de mudanças políticas para a região com a eleição de governadores mais progressistas. A sociedade civil organizada ganhou espaço nos debates políticos, mas os avanços na garantia dos direitos sociais ainda esperam por uma maior concretização. Como analisa este fenômeno?



O fator mais positivo para a América Latina é a diminuição efetiva da influência política e ideológica — e, na América do Sul, também econômica — dos EUA. Um segundo fator muito importante é o surgimento de governos progressistas — novamente mais fortes na América do Sul — , inspirados pela grande tradição da igualdade, fraternidade e liberdade, que comprovadamente está mais viva aí do que em outras regiões do mundo neste momento. Estes novos regimes têm se beneficiado de um período de altos preços de seus bens de exportação. Quão profundamente serão afetados pela crise econômica, principalmente o Brasil e a Venezuela, ainda não está claro. Suas políticas têm logrado algumas melhorias sociais genuínas, mas até agora não reduziram significativamente as enormes desigualdades econômicas e sociais de seus países. Esta redução deve permanecer a maior prioridade de governos e movimentos progressistas.

Diante da crise civilizatória, do fracasso do capitalismo e da inoperância dos sistemas multilaterais, que não foram aptos a enfrentar as grandes questões mundiais, as esquerdas têm se debatido na busca de alternativas; mas nem consensos nem respostas parecem despontar no horizonte. Haveria, em sua opinião, a possibilidade real da construção de um novo socialismo, uma nova forma de lidar com o planeta e sua gente, capaz de enfrentar a hegemonia bélica, econômica e política do neoliberalismo?

Eu não acredito que exista uma oposição binária simples entre “um novo socialismo” e a “hegemonia do capitalismo”. Não existe apenas uma forma de capitalismo. A tentativa de aplicar um modelo único, o “fundamentalismo de mercado” global anglo-americano, é uma aberração histórica, que potencialmente colapsou agora e não pode ser reconstruída. Por outro lado, o mesmo ocorre com a tentativa de identificar o socialismo unicamente com a economia centralizada planejada pelo Estado dos períodos soviético e maoísta. Esta também já era (exceto talvez se nosso século for reviver os períodos temporários de guerra total do século 20). Depois da atual crise, o capitalismo não vai desaparecer. Vai se ajustar a uma nova era de economias que combinarão atividades econômicas públicas e privadas. Mas o novo tipo de sistemas mistos tem que ir além das várias formas de “capitalismo de bem estar” que dominou as economias desenvolvidas nos trinta anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.



Deve ser uma economia que priorize a justiça social, uma vida digna para todos e a realização do que Amaratya Sen chama de potencialidades inerentes aos seres humanos. Deve estar organizada para realizar o que está além das habilidades do mercado dos caçadores-de-lucro, principalmente para confrontar o grande desafio da humanidade neste século 21: a crise ambiental global. Se este novo sistema se comprometer com os dois objetivos, poderá ser aceitável para os socialistas, independente do nome que lhe dermos. O maior obstáculo no caminho não é a falta de clareza e concordância entre as esquerdas, mas o fato de que a crise econômica global coincide com uma situação internacional muito perigosa, instável e incerta, que provavelmente não estabelecerá uma nova estabilidade por algum tempo. Entrementes, não há consenso ou ações comuns entre os Estados, cujas políticas são dominadas por interesses nacionais possivelmente incompatíveis com os interesses globais.

Conceitos como solidariedade, cooperação, tolerância, justiça social, sustentabilidade ambiental, responsabilidade do consumidor, desenvolvimento sustentável, entre outros, têm encontrado eco, mesmo de forma ainda frágil, na opinião pública. Acredita que estes princípios poderão, no futuro, ganhar força e influenciar a ordem mundial? Vê algum caminho que possa aproximar a humanidade a uma coabitação harmoniosa?

Os conceitos listados estão mais para slogans do que para programas. Eles ou ainda precisam ser transformados em ações e agendas (como a redução de gases de efeito estufa, encorajada ou imposta pelos governos, por exemplo), ou são subprodutos de situações sociais mais complexas (como “tolerância”, que existe efetivamente apenas em sociedades que a aceitam ou que estão impedidas de manter a intolerância). Eu preferiria pensar na “cooperação” não apenas como um ideal generalista, mas como uma forma de conduzir as questões humanas, como as atividades econômicas e de bem estar social. Me entristece que a cooperação e a organização mútua, que eram um elemento tão importante no socialismo do século 19, desapareceram quase que completamente do horizonte socialista do século 20 – mas felizmente não da agenda do MST. Espero que esta lista de conceitos continue conquistando o apoio e mobilize a opinião pública para pressionar efetivamente os governos. Não acredito que a humanidade alcançará um estado de “coabitação harmoniosa” num futuro próximo. Mas mesmo se nossos ideais atualmente são apenas utopias, é essencial que homens e mulheres lutem por elas.


O senhor, que estudou com profundidade a história do mundo e as relações humanas nos últimos séculos, o que espera do futuro?

Se a crise ambiental global não for controlada, e o crescimento populacional estabilizado, as perspectivas são sombrias. Mesmo se os efeitos das mudanças climáticas possam ser estabilizados, produzirão enormes problemas que já são sentidos, como a crescente competição por recursos hídricos, a desertificação nas zonas tropicais e subtropicais, e a necessidade de projetos caros de controle de inundações em regiões costeiras. Também mudarão o equilíbrio internacional em favor do hemisfério Norte, que tem largas extensões de terras árticas e subárticas passíveis de serem cultivadas e industrializadas. Do ponto de vista econômico, o centro de gravidade do mundo continuará a se mover do Oeste (América do Norte e Europa) para o Sul e o Leste asiático, mas o acúmulo de riquezas ainda possibilitará às populações das velhas regiões capitalistas um padrão de vida muito superior às dos emergentes gigantes asiáticos. A atual crise econômica global vai terminar, mas tenho dúvidas se terminará em termos sustentáveis para além de algumas décadas. Politicamente, o mundo vive uma transição desde o fim da Guerra Fria. Se tornou mais instável e perigoso, especialmente na região entre Marrocos e Índia. Um novo equilíbrio internacional entre as potências — os EUA, China, a União Européia, Índia e Brasil — presumivelmente ocorrerá, o que poderá garantir um período de relativa estabilidade econômica e política, mas isto não é para já. O que não pode ser previsto é a natureza social e política dos regimes que emergirão depois da crise. Aqui as experiências do passado não podem ser aplicadas. O historiador pode falar apenas das circunstâncias herdadas do passado. Como diz Karl Marx: a humanidade faz a sua própria história. Como a fará e com que resultados, muitas vezes inesperados, são questões que ultrapassam o poder de previsão do historiador.


Fonte: Instituto Humanitas Uninisinos (IHU)