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sábado, 14 de abril de 2012

Planteta vivo e planeta morto

Por José Eustáquio Diniz Alves

Muita gente acha estranho quando se diz que a humanidade já está consumindo 1,5 planeta (um planeta e meio), sendo que, segundo a metodologia da pegada ecológica, o mundo deverá atingir -dependendo da continuidade do ritmo de loucuras do modelo atual – o consumo equivalente a 2 planetas entre 2030 e 2050.

Mas como é possível consumir mais de um globo terrestre? A resposta é simples: não existe apenas um planeta Terra, mas sim dois, um planeta vivo e um planeta morto. O planeta vivo está na superfície e o planeta morto está no subsolo.

O planeta morto é composto por material orgânico decomposto e que foi fossilizado em decorrência dos efeitos da pressão e da temperatura elevadas atuando durante milhões de anos junto ao processo de soterramento. A matéria orgânica é constituída por substâncias contendo carbono na sua estrutura molecular. A queima deste carbono transforma este material em combustíveis fósseis. O carvão mineral, o petróleo e o gás natural são os combustíveis fósseis mais utilizados, servindo para colocar em movimento as locomotivas, trens, carros, caminhões, navios, além de gerar eletricidade para toda a cadeia produtiva da economia (inclusive hospitais e escolas) e para o consumo particular das famílias.

Os combustíveis fósseis, além de serem finitos, provocam grande poluição (como a liberação de mercúrio que polui as águas) e são um dos principais responsáveis pelo efeito estufa que aquece a atmosfera da Terra e provoca mudanças climáticas. A utilização dos combustíveis fósseis possibilitou que a população humana e a economia apresentassem um crescimento sem precedêntes nos últimos 200 anos. A humanidade se espalhou por todo o planeta, destruindo biomas e comprometendo a qualidade das águas, ao mesmo tempo que vai reduzindo a capacidade de regeneração da Terra. Num processo de crescimento permanente da pegada ecológica, o ser humano ultrapassou as fronteiras planetárias.

Porém, cabe a pergunta: é possível consumir mais de um planeta? Sim, no curto e médio prazo, da mesma forma como é possível uma pessoa gastar mais do que recebe. Tudo depende das condições herdadas. Suponha que uma pessoa herdou uma empresa LTDA que tenha um capital de R$ 10 milhões de reais e forneça uma receita líquida mensal de R$ 20 mil para o herdeiro proprietário. Mas suponha que este felizardo proprietário resolva gastar em média R$ 30 mil por mês. Provavelmente este esbanjador conseguirá viver nesta situação por 20 ou 30 anos. Todavia, irá certamente à falência depois de destruir o patrimônio herdado. Isto acontece com frequência e está explícito naquele velho provérbio: “Pai rico, filho nobre, neto pobre”.

Jorginho Guinle é um “bom” exemplo (a ser evitado) de pessoa que passou toda a vida torrando os recursos herdados e prisioneiro de um consumismo fútil e exibicionista. Segundo a Wikipedia: “Jorge Guinle (1916-2004) foi um socialite, playboy e herdeiro milionário brasileiro. Viveu a época áurea do Rio de Janeiro entre a década de 1930 e 50, onde conheceu e acredita-se que tenha tido relações amorosas com diversas atrizes de Hollywood. Residiu no hotel Copacabana Palace (fundado por seu tio, Octávio Guinle) até a sua morte, gabando-se de nunca ter trabalhado na vida. Jorge se orgulhava de ter gasto a fortuna de quase cem milhões de reais que lhe foi deixada de herança”.

De certa forma, a humanidade está seguindo o princípio de Jorginho Guinle de viver dos recursos da herança (“trabalho morto” apropriado e acumulado, como ocorrido com os antigos Guinles) e gastar mais do que a mãe Terra oferece. A humanidade está vivendo da riqueza deixada e acumulada durante milhões de anos em forma de combustível fóssil. A economia e a renda per capita mundial cresce na medida em que essa herança é, literalmente, queimada.

Ou seja, a humanidade está consumindo e torrando o planeta morto e transformando a matéria orgânica fóssil em CO2 que fica acumulado na atmosfera (provocando o aquecimento global). Concomitantemente, o ser humano está também destruindo ou danificando seriamente as matas, os rios, os lagos e os oceanos. Ou seja, a humanidade está montando uma máquina de consumo que está queimando o planeta morto e destruindo o planeta vivo.

A falta de compromissos sérios por parte dos governos e das Conferências da ONU indica que este processo deve continuar até 2050.

Provavelmente, em meados do século XXI, os cerca de 9 billhões de habitantes do mundo estarão em situação semelhante àquela da senilidade de Jorginho Guinle (ou como o decadente idoso personagem central do romance Leite Derramado de Chico Buarque). Isto é, a humanidade vai estar com um passivo contábil muito grande, mas sem a contrapartida do ativo natural para sustentar o padrão de vida.

A continuidade deste processo vai tornar quase impossível a sobrevivência de todos os seres vivos depois que a humanidade queimar os restos do planeta morto e destruir o planeta vivo.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. 

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Por ora, sem substituto



Por Manuel Lume

No início, o uso em larga escala do petróleo teve um impacto ambiental positivo. Quando o querosene se mostrou mais eficiente e barato para a iluminação, a matança de baleias, que forneciam o óleo dos lampiões e lamparinas, caiu drasticamente. Desde então, descobriram-se mil e uma utilidades para o petróleo. Um site dos EUA chegou a listar quase 2 mil produtos de uso cotidiano que não poderiam ser feitos ou teriam custos proibitivos sem o petróleo. Entre eles a aspirina, o capacete de motociclista e o paraquedas.

Portanto, a era do Petróleo está ainda muito longe de ser completamente substituída por aquilo que se convencionou chamar de Era do Verde. Assim pensam os estudiosos ouvidos por Carta Verde, entre eles Carlos Alberto Lopes, diretor da GasEnergy. Por 32 anos, Lopes foi funcionário graduado da Petroquisa, a subsidiária da Petrobras da área de petroquímica. “Será impossível viver sem petróleo ainda por muito tempo”, diz.

Em vez de acabar, a cada dia se descobrem novos usos para as fibras sintéticas oriundas do petróleo, novos usos para seus múltiplos elementos químicos, que têm as moléculas quebradas pelo calor para dar origem a outro elemento, outro produto, milhares deles. A maioria desses usos é nobre, pois eles aumentam o nosso conforto, o nosso bem estar, a nossa saúde.

Na medicina, por exemplo. O Instituto de Química e de Bioquímica da USP, por exemplo, pesquisa o uso de polímeros (sintéticos) do petróleo no desenvolvimento de remédios contra o câncer e antibióticos de quinta- -geração, de altíssimo valor agregado. “Com isso, consigo direcionar melhor a terapêutica para a célula e diminuir a dose do medicamento, com uma liberação melhor, para atingir somente a célula afetada”, explica Marco Antonio Stephano, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

Suely Galdino, do Laboratório de Planejamento e Síntese de Fármacos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), tem outro exemplo: o famoso analgésico AAS (ácido acetilsalicílico), o primeiro remédio produzido em escala industrial (pela Bayer, na Alemanha), contém o Fenol, elemento químico que sai do Cumeno, derivado do Benzeno, que saiu da Nafta, que saiu do óleo original, o petróleo.

Há muitos outros exemplos da importância do petróleo na sociedade moderna. Basta olhar para dentro de casa, nos objetos, nas paredes, no assoalho, no teto, nos fios, nas tintas, nos canos, nos detergentes, nos armários, eletrodomésticos, nos objetos mais simples, como um saco plástico (que, no entanto, acondiciona alimentos, sangue de doadores e isola o lixo) ou nas coisas bonitas, como um daqueles vestidos dos desfiles de alta moda. Tudo tem PET, PVC, poliéster, polipropileno, polietileno, náilon, solvente, resina.

Popularmente, todos esses nomes se resumem ao plástico. Os plásticos, como os demais produtos extraídos dos hidrocarbonetos (átomos de hidrogênio e carbono), são constituídos de longas cadeias de moléculas chamadas polímeros, que, por sua vez, são formadas por moléculas menores, chamadas monômeros. Os polímeros podem ser naturais ou sintéticos. Os naturais, como algodão, madeira, cabelo e látex, entre outros, são comuns em plantas e animais. Os sintéticos, como os plásticos, são obtidos por meio de reações químicas. O tamanho e a estrutura da molécula do polímero determinam as propriedades do plástico.

Os polímeros são conhecidos do homem há pelo menos 3 mil anos. Em 1000 a.C., os chineses aprenderam a extrair um verniz de uma árvore que serviu de revestimento impermeável e durável, criando o lustra-móveis que -conhecemos até hoje. Nos 3.011 anos desde a descoberta chinesa, o homem moldou a madeira, a borracha, o aço, o vidro e descobriu a possibilidade de substituir tudo pelo plástico, com inúmeras vantagens. Hoje em dia, se produzem plásticos tão duros quanto o aço e tão transparentes quanto o vidro, e com grande economia de energia de produção na comparação. “O farol dos automóveis hoje é feito de policarbonato, não de vidro”, conta o pesquisador Luiz Pontes, doutor em engenharia química, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade de Salvador (Unifacs), que trabalhou 13 anos no Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia.

A indústria petroquímica, em consequência, perpassa quase todas as demais indústrias com seus insumos: de fertilizantes, plásticos, fibras químicas, tintas, corantes, elastômeros, adesivos, solventes, tensoativos, gases industriais, detergentes, inseticidas, vacinas animais (que são pesquisadas para aplicar também em homens), explosivos, na construção civil, nas telecomunicações, médico-hospitalar, distribuição de energia e outras centenas de segmentos. Os chamados plásticos geossintéticos são usados até para drenagem, controle de erosão e reforço do solo de aterros sanitários e em tanques industriais.

No Brasil, o fim da Era do Petróleo parece ter ficado mais longe depois da sua descoberta em áreas até 7 mil metros abaixo da linha da água do oceano, que multiplicou muitas vezes as reservas brasileiras. Somente as reservas provadas da Petrobras chegaram a 16 bilhões de barris de petróleo equivalente (somado ao gás) em 2010, segundo dados da própria estatal.

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), a produção de químicos (não há dados isolados da petroquímica) foi responsável por 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do País em 2010. São quase 5 mil empresas com mais de 300 mil empregados. Essa indústria faturou 228,8 bilhões de reais em 2010.

O grande problema da indústria petroquímica é ter como insumo básico um bem finito, o petróleo, fato que a torna insustentável no tempo. Além disso, é altamente poluente. Apesar dos avanços e das pesquisas, considerando apenas os plásticos, somente 15% do total produzido é reciclado. O resto vai para o lixo. Pratos, canetas, bijuterias, espuma, embalagens a vácuo e fraldas descartáveis, entre outros, ainda não são reciclados.

Segundo os especialistas ouvidos por Carta Verde, a reciclagem do plástico exige cerca de 10% da energia utilizada no processo primário. Uma série de produtos pode ser fabricada com resíduos plásticos, como cabides, pentes, garrafas, frascos, baldes, cerdas de escovas de dente, vassouras e painéis para a construção civil, entre outros.

Na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, existem equipamentos para a utilização de plásticos como fonte energética, com controles de emissão seguros, sem riscos para a saúde e o meio ambiente. A energia contida em 1 quilo de plástico equivale à de 1 quilo de óleo combustível. Além da economia e da recuperação de energia, com a reciclagem ocorre ainda uma redução de 70% a 90% da massa do material, restando apenas um resíduo inerte esterilizado. “Tudo deveria ser reciclado, mas falta dinheiro, falta cultura”, diz o pesquisador Luiz Pontes.



Para saber um pouco mais a respeito do petróleo recomendo as seguintes bibliografias:
 
BARRETO, Carlos E. P. A Saga do petróleo Brasileiro: “A Farra do Boi”. Ed. Nobel: São Paulo, SP 2001.

COHN, Gabriel. Petróleo e Nacionalismo. Difel – Difusão Européia do Livro: São Paulo, SP. 1968.

ERTHAL, João Marcello. “Para onde vão os royalties?“, Revista Carta Capital, v.12, n.378, p. 10-18, fevereiro de 2006.

FUSER, Igor.  O petróleo do Golfo Pérsico, ponto-chave da estratégia global dos Estados Unidos. p. 87-102. In: FRATI, Mila. (org.). Curso de formação em política internacional. Ed. Fundação Perseu Abramo: São Paulo, SP 2007.

LIMA, Haroldo. Petróleo no Brasil: A Situação , o Modelo e a Política Atual. Synergia Editora: Rio de Janeiro, RJ, 2008.

MONTEIRO MOBATO, José Bento R. O escândalo do petróleo e do ferro. Editora Brasiliense: São Paulo, SP, 1936.

MINADEO, Roberto. Petróleo, a maior indústria do mundo. Thex Editora: Rio de Janeiro, RJ, 2002.

NOGUEIRA, Luiz A. H. “A crise Energética atual e sua antecessora”. Revista SBPC Ciência e Cultura. Vol. 37, nº 6, pg. 952-956. São Paulo, SP, 1985.

NOGUEIRA, Pablo. “Pobres Cidades Ricas: Riqueza que não traz felicidade“, Revista UNESP Ciência, Unesp, ano 1, n. 5, fevereiro de 2010.

SANTOS, E. M. “Petróleo: quadro estratégico-global no início do séc. XXI”. Política Externa, v. 12, nº1, jun/jul/ago de 2003. p. 95-115.

PAUTASSO, Diego & OLIVEIRA, Lucas K.  A segurança energética da China e as reações dos EUA. Revista Contexto Internacional. vol 30, nº 2, dezembro de 2008.

PIRES, Paulo Valois. A Evolução do monopólio estatal do petróleo. Ed. Lumen Juris: Rio de Janeiro, RJ, 2000, 173 p.

POSTALI, Fernando A. S. Renda mineral, divisão de riscos e benefícios governamentais na exploração de petróleo no Brasil. Dissertação de Mestrado, BNDES: Rio de Janeiro, RJ, 2001. 119 p.

PIQUET, Rosélia & SERRA, Rodrigo (orgs.) Petróleo e região no Brasil: o desafio da abundância. Ed. Garamond Universitária: Rio de Janeiro, RJ. 2007.

SHAH, Sonia. A História do Petróleo. L&PM Editores: Porto Alegre, RS, 2007. 240p.

TORRES FILHO, Ermani T.  “O papel do Petróleo na Geopolítica Americana”. pg. 309-346. Em: FIORI, José Luís. (org.) O Poder Americano. Ed. Vozes: Petrópolis, RJ, 2004.

UNGER, Craig. As famílias do petróleo. Ed. Record: Rio de Janeiro, RJ, 2004.

VICTOR, Mario. A Batalha do Petróleo Brasileiro. Ed. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, RJ, 1970.

VIDAL, Gore. Sonhando a Guerra: Sangue por petróleo e a Junta Cheney-Bush. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro, RJ. 2003, 175 p.

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YERGIN, Daniel. O Petróleo: uma história de ganância, dinheiro e poder. Ed. Página Aberta: São Paulo, SP, 1993, .932 p.